Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
15.4.22

Quando vemos e lemos textos dos autores que são adeptos (ou, alguns verdadeiramente fascinados...) pela Iconografia naturalista, normalmente patente na Arte Cristã, é quase impossível não nos arrepiarmos de dôr.

Acontece com frequência, e depende até da qualidade das obras. Porque é a dor e o sofrimento que mais sobressaem nessas peças, a que hoje chamamos Arte.

[E com esta designação a englobar versões muito diferentes daquilo que é/foi, ou que na actualidade se entende por Arte]

Talvez uma das mais incríveis, e sobretudo uma das obras melhor conseguidas, seja esta Pietá de Miguel Ângelo? Onde o sofrimento a que nos referimos, na expressão da Virgem, parece já estar apaziguado e aquietado...

É uma imagem que não nos traz (tanto) sofrimento quanto sucede com outras, e que, pelo contrário, até nos atrai pela sua beleza.

Talvez até o contraponto entre idealismo - patente na Virgem, e o realismo - expressão de sofrimento e dor fixado no corpo morto de Cristo (?), seja, quase inconsciente (para quem vê).

Mas, agora que reparámos neste contraste, talvez este seja um dos aspectos mais marcantes, e mais eficazes - mostrando o sentido de Arte (e da habilidade que caracteriza os artistas) -, que o autor conseguiu deixar plasmado nesta obra fantástica?

Pietá-2.jpg

Enfim, cada um vive a religião como quer (e pode1); mas, se se quiser, no nosso caso – e estamos ainda a pensar no que escreveu Frederico Lourenço – na nossa situação, em grande parte, o que mais valorizamos em toda esta história (que é a do cristianismo, acontecida desde há mais de dois mil anos), é a dádiva de Cristo ao mundo:

O dar a sua vida, e depois o sofrimento na cruz, é o que melhor exprime o seu amor à Humanidade.

Assim, entre as «posturas» (artísticas) de platónicos e de aristotélicos – que se podem ler no texto seguinte -, também entre Idealismo e Naturalismo, seria impossível que a beleza contida nessas abstracções platónicas (que são os Diagramas), assim como o seu Idealismo não nos tocasse 2.

O excerto que agora se publica está mais desenvolvido aqui, onde também poderão lê-lo. Vem de São Tomás de Aquino, de G. K. Chesterton

"O que tornou a revolução aristotélica profundamente revolucionária foi o facto de ser religiosa. É ponto tão fundamental, que julguei conveniente apresentá-lo nas primeiras páginas deste livro: que a revolta foi em grande parte uma revolta dos elementos mais cristãos da cristandade. São Tomás, exactamente como São Francisco, sentiu no subconsciente que a massa da sua gente ia deixando a sólida doutrina e disciplina católica, gasta lentamente por mais de mil anos de rotina, e que a fé precisava de ser apresentada a uma nova luz e encarada por um ângulo diferente. Não tinha outro motivo senão o de desejar torná-la popular para a salvação do povo. Dum modo geral, é verdade que durante algum tempo ela fora demasiado platónica para ser popular. Precisava de algo como o toque sagaz e familiar de Aristóteles, para a transformar de novo em religião de senso comum. Quer o motivo, quer o método se manifestam na controvérsia de Tomás de Aquino com os agostinianos.

Primeiro devemos recordar que a influência grega continuou a fazer-se sentir, desde o império grego, ou, pelo menos, desde o centro do império romano que estava na cidade grega de Bizâncio e já não em Roma. Essa influência era bizantina em todos os sentidos, no bom e no mau. Como a arte bizantina, era severa, matemática e um pouco terrível; como a etiqueta bizantina, era oriental e levemente decadente. Devemos ao saber do Sr. Christopher Dawson muita luz sobre o modo como Bizâncio lentamente se cristalizou numa espécie de teocracia asiática, mais semelhante à do sagrado imperador na China. Mas até as pessoas incultas podem ver a diferença no modo como o cristianismo oriental simplificava tudo, do mesmo modo que reduzia as imagens a ícones que melhor se poderiam chamar figurinos do que verdadeiros quadros com variedade e arte; e isso fez uma guerra decidida e destrutiva às estátuas.

Assim vemos esta coisa estranha, que o Oriente era a terra da cruz e o Ocidente a terra do crucifixo. Os gregos estavam a ser desumanizados por um símbolo radiante, ao passo que os godos iam sendo humanizados por um instrumento de tortura. Só o Ocidente fez quadros realistas da maior de todas as histórias originárias do Oriente.

Eis porque o elemento grego na teologia cristã tendeu cada vez mais para se converter numa espécie de platonismo seco, uma coisa de diagramas e de abstracções, todas elas muitíssimo nobres, sem dúvida, mas que não eram suficientemente tocadas por essa coisa imensa que, por definição, é quase o contrário das abstracções: a Incarnação. O seu Logos era o Verbo, mas não o Verbo feito carne."

É esta frase final do texto, que hoje - Sexta-Feira Santa - pode passar nas nossas mentes: os Diagramas, e «as abstracções» que com o apoio da geometria tentaram traduzir, são generalistas. Porque a maior realidade (essência) do cristianismo é a Incarnação [da qual depois decorre o resto da história, em que um dia Cristo foi julgado, torturado e morto... nesse dia que hoje se evoca]

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1 Lembramo-nos dos que dizem, que gostavam de acreditar.

2 Como resumo/síntese das ideias do Cristianismo; ideias gerais, que não vão ao particular, nem ao detalhe; e portanto muito menos ainda a imagens como são cicatrizes e feridas provocadas por tortura.   

link do postPor primaluce, às 18:00  comentar

 
Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
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