Na Internet bastou-nos clicar «Milan, Cathedral, e Ackerman» e logo apareceu o site da JSTOR. De onde várias vezes temos lido textos bem interessantes. Definitivamente não nos podemos queixar, pelo contrário (*).
Assim, e continuando mais uma vez a escrever sobre Representações do Infinito, como já está no post de 24.06.2025, agora é essencial relembrar - se isso ainda não ficou completamente evidente em muitos dos nossos escritos (?) - que a ideia de Estrutura Triangular, é, e foi, uma constante fortíssima da Arte Cristã.
Dizemo-lo, mas agora com base no artigo de James Ackerman, cujo titulo a seguir, remete exactamente para a Ciência:
"Ars Sine Scientia Nihil Est" Gothic Theory of Architecture at the Cathedral of Milan
Embora neste mesmo artigo, também em latim, seja referida igualmente a estrutura quadrangular. Designada como "Ad Quadratum" . Expressão que se pode traduzir para português como - "Ao modo quadrado".
Note-se que antes de ler o artigo, em epígrafe encontra-se uma citação de Viollet-Le-Duc, que chama a atenção para a importância da estrutura.
Mas a estrutura "Ad Triangulum" a que nos referimos, não é exactamente aquela que em geral, e na actualidade, todos somos levados a supor ser, o significado ou a indicação da palavra estrutura. Essa referência a estruturas não tem que ser apenas, e exclusiva às estruturas que normalmente suportam os edifícios.
Em nossa opinião - e tal como se vê na arte cristã - acontece com razoável frequência, a ideia da estrutura poder ser, algo bastante mais lato e abrangente. Incluindo o que hoje se considera serem decorativismos (**).
Portanto, para nós (e aqui sem lugar para dúvidas) a ideia de estrutura é extensível, também à Estrutura da Imagem.
Pois estrutura, é a ideia - ou o conceito, como hoje todos lhe chamam - de Traçado Director.
Sendo este -"traçado director" - mais uma das expressões, ou um dos termos, que muitos colegas, e até frequentemente os nossos alunos, insistiam em lembrar. Quando passaram (eles) a usar estes vocábulos. E se isto acontecia, concretamente há mais de 20 anos, agora, na prática, todos já falam assim. Não cuidando em informarem-se (ou achando talvez...), que ao falar em conceitos, em vez de falar em ideias estão a promover uma concepção projectual?
Perguntamos, mas continuamos sem resposta. Porque as mudanças sucedidas no emprego de certos vocábulos e discursos, são, inclusivamente percas de sentido. Assim como a razão para muitas vezes ser mais difícil explicar, e extrapolar para o presente - com base em analogias -, aquilo que aconteceu no passado.
E se estamos a explicar assim - tudo tão minuciosamente -, é porque nos parece necessário. Para no fim se poder chegar à compreensão da imagem de alguns azulejos que existem no Palácio Nacional de Sintra, e cujo entendimento, que saibamos, até agora nunca foi explicado (***).
Azulejos que não sendo resultantes, exactamente, de um traçado, ou geometria "Ad Triangulum", no entanto o seu desenho, como supomos, terá derivado da lógica dessa estrutura geométrica (triangular).
E é para se chegar lá, que quase nos socorremos do método demonstrativo da Geometria. Como está a seguir e tentamos abreviar:
1. A partir dos dois Círculos Entrelaçados e da Mandorla - como explicada por James Stevens Curl - ficou criada uma estrutura, ou traçado director "Ad Triangulum": isto é, rigorosamente triangular. Já que cada um dos círculos contém o centro do outro círculo.
2. Os dois círculos têm raios iguais, e esse traçado é o mesmo que desenha (ou gera) o Arco Quebrado. Cujos vértices coincidem com os do Triângulo Equilátero.
3. Os desenhos seguintes resumem o que se escreveu em 1. e 2. Ler a legenda
Como é conhecido, os povos mais antigos - como está patente em muitos dos seus trabalhos e produções -, dominavam a Geometria com grande habilidade. Por exemplo, os mosaicos romanos da Antiguidade Tardia, assim como artefactos e produtos muitíssimo anteriores, são óptimas provas desse domínio. Aquele que em geral todos tinham desta disciplina - a Geometria - que pode ter sido a primeira Ciência? A qual como é sabido integrava as Artes Liberais : Trivium e Quadrivium. E em que a Geometria, com a Aritmética, Astronomia e Música faziam parte do Quadrivium : As Artes Liberais da medida e quantidade.
Porém, é preciso dizê-lo, os conhecimentos científicos não estavam especializados e tão demarcados como hoje. A ponto de se encontrar em Hugues de Saint-Victor, que viveu no séc. XII (no seu Didascalicon), a seguinte afirmação: "la géométrie est la source des sensations et l'origine des expressions".
Pelo que (em nossa opinião), é completamente lícito admitir que várias formas e padrões, de origem geométrica, tenham sido empregues em função dos significados que acrescentavam aos espaços e ambientes em que foram aplicados. E assim introduzimos o conjunto de imagens colocadas acima:
No canto superior direito da imagem está um circulo (cor bege) com um triângulo equilátero (a azul). E neste, estão desenhadas as perpendiculares ao meio de cada um dos lados (que se chamam apótemas). No seu prolongamento, os apótemas encontram-se no centro do triângulo.
Foquemo-nos nesses traços a azul, que lembram um «Y». Eles também dividem o circulo (bege) em 3 partes iguais, e desenham no centro (do círculo e do triângulo) três ângulos que são de 120º cada.
Forma que agora nos faz ir buscar algumas ilustrações de um livro E. H. Gombrich, dedicado ao Sentido da Ordem. Uma «ordem» em padrões, dizemos nós, já que como se vê, Gombrich também se ocupou com estas (pequenas) imagens. Pequenas imagens (avulsas), formas ou ideogramas, que depois de justapostas formam padrões, que correspondem à repetição da imagem inicial.
Repare-se que justapostas é o mesmo que colocado lado a lado, com ou sem conexão (de continuidade).
No caso seguinte (dentro do rectângulo vermelho), e pelo que Gombrich escreveu, tudo isto lhe interessou, para as suas análises do ponto de vista da simetria. Embora, note-se, tal como já se explicou para outras palavras, a palavra «simetria», aqui, pode não ter forçosamente, o mesmo sentido que tinha no passado.
Assim dentro do rectângulo vermelho, estão ideogramas que se assemelham a «YY»; ou a «ventoínhas» de três braços.
Depois, e ainda do mesmo livro de Gombrich, trazemos a capa; assim como - logo abaixo -, colocámos uma outra imagem: ambas resultantes da aplicação dos traçados "Ad Triangulum"
E aqui chama-se a atenção para o que pode parecer - como "quase magia" (como dizem as crianças) - o efeito poderoso de um desenho/padrão bidimensional. Que, como mostram as duas imagens, ao ser riscado, ou com uma escolha cromática coerente (o exemplo adoptado para a capa do livro), o desenho bidimensional parece ter adquirido volume.
Ganhou expressão tridimensional muitíssimo marcante.
A qual, garantidamente, não passa de uma ilusão de óptica, já que o ecrã do telemóvel ou do computador continua plano!
No entanto, tal como esta imagem (no presente, e com os meios tecnológicos que dispomos), nos consegue impressionar, também se é levado a admitir que o mesmo tenha acontecido no passado. Não apenas aos pintores e aos criativos que as pintaram, mas a todos os que vissem o seu efeito, quase ilusório. Daí, possivelmente, ter-se tornado num recurso que seria empregue em casos mais especiais?
Como mostram os exemplos seguintes, que vimos no FB de Vítor Serrão (em 04.08.2021) e de LiliaPereira DaSilva (em 01.06.2021), este recurso gráfico (visual) além de ter sido significante - pela sua base de geometria triangular (falante) - também permitiu criar efeitos visuais razoavelmente interessantes.
E se a primeira imagem (acima) obedece à malha triangular rigorosa - "Ad Triagulum" - , repare-se que o mesmo já não acontece nas duas últimas. Continuam a aparentar, visualmente, um grande dinamismo, mas do ponto de vista das perspectivas paralelas, que estes padrões também criam, a primeira perspectiva, cientificamente é designada isométrica - por ser igual em todas as direcções. E as duas últimas, que são também projecções paralelas, designam-se dimétricas (ou conhecidas por perspectivas cavaleiras).
Resta-nos acrescentar que para se chegar ao entendimento dos Azulejos da Sala Árabe do Palácio Nacional de Sintra (foto seguinte, vinda daqui), era essencial o percurso cientifico que fizemos e a narrativa visual que a completa.
(a continuar).
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
(*) E o acesso ao JSTOR é do melhor que nos sobrou dos estudos feitos na BAQ, no IADE.
(**) Isto é, actualmente muitos estamos habituados - por exemplo, pela maneira como se constrói empregando estruturas de betão armado - a separar o suporte das construções de tudo o mais que completa as edificaçpões. Incluindo as paredes divisórias (que podem ser leves ou de tijolo); pavimentos (leves) apenas de revestimento da parte estrutural, que por isso é comum serem chamados flutuantes. Mas também os elementos complementares, funcionais ou decorativos, que em geral são apostos sobre as estruturas... Pelo que o emprego da palavra Estrutura, é agora muito mais específico e restritivo do que foi no passado; em que não havia separações e especializações como há hoje.
(***) Temos notado a sua existência, e reunido alguns exemplos, pelo que é difícil ter a certeza de que se trate de um caso raríssimo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Sobre James Ackerman já escrevemos:
'Ars sine scientia nihil est'... - Primaluce: Nova História da Arquitectura
Com as informações que temos recolhido - e não são poucas... - Primaluce: Nova História da Arquitectura
link do postPor primaluce, às 17:30  comentar







