Prometemos fazer um post sobre o tema Arco Moçárabe, não está esquecido... Mas, na verdade, as informações que encontramos sobre os Moçárabes, e o Moçarabismo são bastante escassas.
No entanto, e porque todas as nossas pesquisas são sempre altamente - que é como quem diz, utilíssimas; assim, depois de feito este post. e dada a falta de espaço (nos comentários do Facebook), passámos para aqui, onde se completam uma série de informações:
A imagem acima representa o IIIº Concílio de Toledo, e é um quadro a óleo (século XIX) de José Marti y Monso*.
Ainda deste quadro - e porque as questões que nos interessam são iconográficas - chama-se a atenção para o pormenor do desenho do pavimento, ampliado na imagem seguinte. Mais: sublinhe-se que o pintor não esteve lá; não assistiu à cena, e portanto fez o que se pode chamar uma reconstituição histórica: como no cinema ou no teatro.
E aqui, não sabemos, apenas supomos, terá sido com pesquisa (ou sem ela?), que decidiu, como se vê abaixo, o padrão para o pavimento. Exactamente para contextualizar (e enfatizar) - pela conveniência, e pela boa adequação (como os antigos, desde Homero, sempre viram estas questões das imagens que se deviam empregar) - a reconstituição histórica que, certamente, quereria ele, fosse tão verosímil quanto possível.
Mas, voltando à História - às ideias, e aos factos da época em que estas imagens nasceram - , sabemos que para alguns, como Pinharanda Gomes, foi em Toledo, no ano 400, e no Iº Concílio, que pela primeira vez foi proclamado o Filioque. Já para outros autores, nesse Concílio (do ano 400) a decisão mais importante foi a condenação do Priscilianismo, não sendo referida a questão do Filioque.
Depois - e como já está no nosso trabalho sobre Monserrate** -, sabe-se que foi em 589 (é a reconstituição histórica que está no quadro) que Recaredo fez o mesmo que Clóvis (m. 511). Quando quase um século antes o Rei dos Francos se tinha convertido ao Catolicismo: abandonando assim o Arianismo.
Recaredo, dizem (vários autores), precisava de unir o seu povo que vivia em guerras constantes; mas fê-lo - ao contrário do que era esperado -, não no sentido da "identidade Goda", tendo preferido repetir o gesto de Clóvis, que Roma já tinha (naturalmente e entretanto) aprovado. Aprovação que tinha o apoio de vários Padres da Igreja, entre os quais se conta Santo Agostinho (m. 430) que escreveu Sobre a Trindade, de acordo com o que ficara estipulado em Niceia (325) e em Constantinopla (381)
O que é interessante verificar - à medida que vamos ampliando as nossas informações sobre este assunto (desde 2002 até 2020) - é o enorme desconhecimento que entretanto também se abateu, desde o início do século XX, sobre as instituições de ensino (que é dito ser) superior, relativamente a estas questões. E aonde, estranhamente, os vários professores, de tão especializados que são, deixaram de saber o que antes todos sabiam, e que eram generalidades.
Como se pode ver já abaixo, nesta página (e em todo o Guia) de onde retirámos as imagens deste post, aí há bastante mais informações: pois foi na Basílica de Santa Leocádia que decorreram mais de uma dezena de Concílios (ibéricos). Ficando a saber-se, inclusivamente, que há em Toledo um Museu dedicado a esses mesmos concílios...
Ou seja, concretamente, confirma-se essa proliferação de reuniões ou conselhos (daí a origem da designação concílio), onde nem tudo o que se debatia eram exclusivamente assuntos religiosos; isto é, não se limitavam às discussões sobre as duas fés - a fides romana e a fides gotica - que, especialmente em Toledo, se afrontavam.
E pelas informações obtidas, percebe-se que era muito diferente daquilo que a palavra Concílio hoje nos faz pensar. Visto que nos Concílios de Toledo se discutiram temas que hoje são da política, e da organização de toda a sociedade, dividida por países, cabendo aos respectivos governos as tomadas de decisão (e não à religião)
Foi por vários autores que ficámos a saber, bastante mais, acerca desta imensa temática***. Sendo portanto de estranhar, muitíssimo, que nos tivessem «sugerido» que era absolutamente necessário encontrar as "Origens do Gótico" para podermos perceber Monserrate; e que, depois de desvendado esse enigma, antiquíssimo, os (supostos) interessados nada mais quisessem saber do assunto.
Ficando os ditos orientadores e autores das sugestões de pesquisa, reféns da sua tacanhez e enorme fechamento, relativamente às questões que eles próprios levantaram. Ou seja, não sabiam e não imaginavam, minimamente, o imenso alcance das questões que eles mesmos colocaram.
Melhor, são todos os sinónimos de tacanho - que um qualquer dicionário nos dá -, como é por exemplo a ideia de acanhado e de pequeno... Não precisando nós, nos tempos que correm, de mais sinónimos ou epítetos, para adjectivar tanta parvoeira. Sobretudo quando se podem ler outros autores, esses sim interessantes e fantásticos, como Frances Yates, Mary Carruthers, ou ainda António Damásio.
E isto num tempo em que é tanto o que nos é dado, e em que podemos pôr (sem barreiras ridículas entre disciplinas), todas as nossas melhores informações, ao serviço do conhecimento do passado, e das ideias que foram materializadas nas obras.
Assim como podemos saber das imagens, que eram frequentemente usadas, para traduzir essas mesmas ideias.
Mais: Historiadores de Arte que não acreditam na capacidade falante das imagens, pior que tacanhos são verdadeiros empatas; e é isto, que está na Universidade de Lisboa!
Mas adiante: a nossa curiosidade já nos poderia ter levado a Toledo? Sim e não. Porque se fossemos a todos os lugares que estão citados em Monserrate, na sua Arquitectura e Iconografia, então a volta seria enorme.
Depois, por outro lado, mais do que os lugares, ou os cenários e os contextos paisagísticos em que todos estes factos ocorreram - como se não tivéssemos imaginação, e fossemos nós fazer a nossa própria reconstituição histórica - mais interessante de facto (para nós, e se temos que escolher) são as problemáticas que ficaram:
Neste caso a tradução de ideias da fé, que em tempos eram chamados dogmas, em imagens esquemáticas - resumidíssimas - que ainda agora se usam como temos mostrado.
Por fim, e para quem tinha decidido ir a Toledo este ano, pelo menos para já valeu a pena voltar a olhar para o Guia. Afinal conseguimos ainda agora uma nova informação, das mais relevantes: tanto quanto se diz terem sido importantes e históricos os concílios de Toledo. Por isso, foi em 1969 que se decidiu a criação de um Museu, para os divulgar.
O mesmo abriu em 1971, mas, pelos vistos, os que nos orientaram e em 2001 mandaram à procura das "Origens do Gótico", dá para ver, ainda não terão tido tempo, no mínimo, de saber da sua existência...?
Pois se soubessem, parece-nos, também estariam a par do contributo dos Concílios de Toledo, no moldar da cristandade a que pertencemos.
Enfim, talvez o Museu numa visita de uma a duas horas, permita no mínimo um conhecimento superficial daquilo que, especificamente, se passou na Iberia.
É neste tom que terminamos: desejando que os professores de História da Arte saibam, um mínimo, daquilo em que metem os seus alunos.
Nesta temática em que nós não esquecemos duas frases da maior importância:
Uma está na New Advent Catholic Encyclopedia, e a outra é de André Grabar. Na primeira questiona-se a abstracção que os Godos tanto discutiram (da qual já se escreveu); na segunda é André Grabar que se refere à ousadia dos Godos - "hardiesse" - palavra lembrada no mesmo post.
Para nós é espantoso, que um conjunto de ideias (nossas), alicerçadas em factos cuja imensa relevância, por exemplo, até deram origem a um museu, que os professores-orientadores do ensino superior português os desconheçam totalmente!
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*Ver no Guia da cidade de Toledo: Toledo, The Magic of Three Cultures, Limite Visual Guide Books, Merida 1997. Ver pp. 34-35, 216.
** Em Monserrate uma Nova História, Livros Horizonte 2008, sobre a conversão de Recaredo, em 589, ver nas p. 18 e 48.
*** E entre muitas obras tivemos a sorte de contactar L'épiscopat de Lusitanie pendant l'Antiquité tardive (IIIe-VIIe siècles), por Ana Maria C. M. Jorge, Edição do IPA, Lisboa 2002, onde se recolhem importantes informações.
Quanto ao Moçarabismo e respectivo Arco - nascido na "fides gotica" - talvez em breve haja outro post