Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
31.10.18

Há dias alguém chamou-nos a atenção para este programa da RTP2

 

Para a amiga que tinha visto a Visita Guiada em directo, no dia 8 de Outubro (2018), era interessantíssimo o que tinha ouvido. Para ela, que Cláudio Torres tivesse falado de questões religiosas, quase as mesmas, como já nos ouviu referir, várias dezenas ou centenas de vezes.

Acontece que, de facto, não vou a Mértola, como não vou a muitos outros locais de enorme interesse histórico, há muitos anos. Simplesmente por não poder ir...

 

Foi desde 2001 o progredir na Carreira Docente*, no IADE: o que, como se tem visto, algo que parece ser um blablabla meu..., super enjoativo! E de que já terão lido em vários posts, visto que essas actividades (estudos, investigação escrita), nos iam permanentemente roubando todo o tempo que houvesse.

E, naturalmente, todo o mais que viesse...

Só que, também tudo pode ter o seu contrabalanço, como nos tem sucedido. Se, por esses lados (SANTOS, 24 DE JULHO, IADE) não progredi nada, na minha cabeça, nos meus entusiasmos, ainda não parei de progredir. E de o referir: nas conversas que tenho, constantemente!

Se há pais e mães que falam entusiasmados dos seus filhos, ou também, quase enjoativamente de todos os pormenores, que chegam às fraldas, às horas de os alimentarem, etc., como é normal nas rotinas dessas suas vidas. Aqui, e para nós, estes Themas da Arquitectura, da História, e numa palavra da Iconoteologia; por aqui, o que passámos a entender (e assim a descobrir) passaram a ser também «nossos filhos». 

Porque, mais do que uma analogia, trata-se de uma equivalência. Pois se as pessoas - os filhos merecem amor dos pais, também os estudos a que nos dedicamos, tendo valor, merecem energias em que não se regateia, nem o tempo, nem o gosto. Claro que nunca será tanto como o amor (parental), mas há equivalências...

 

Enfim, destas explicações - ora longas ora demasiado breves - passamos ao assunto de hoje. Mas com aviso prévio: esperando que vejam as imagens da RTP, e sobretudo que oiçam as explicações de Cláudio Torres.

 

Claro que, e muitas são as razões**, para que as nossas, as respectivas e diferentes explicações, a de cada um de nós sobre este assunto, não sejam coincidentes.

 

Ao ouvi-lo, claro que concordamos que a sociedade agrária é politeísta; claro que houve sempre (e haverá) uma luta entre rurais e urbanos.

 

Porém, neste ponto - e lembrem-se agora dos viajantes - aqueles de que Cláudio Torres fala, descrevendo-os a percorrerem o mar mediterrâneo, e já no fim deste, 66 Km acima da foz do Odiana (e Odos é rio em grego) a aportarem a Mértola. Esses viajantes que chegavam a Mértola, vindos talvez da Fenícia e de muitos outros portos, alguns de mais longe, outros de muito mais perto; esses viajantes tinham uma mentalidade rural ou urbana...? Eram politeístas ou monoteístas?

 

Mas, será que as melhores perguntas que se devem colocar não são outras? Será que não se deve antes questionar se eram Judeus, Bizantinos, Visigodos...?

 

De qualquer modo ficam estas nossas perguntas (embora algumas outras fossem possíveis...) e vamos avançando.

 

Lembrando apenas, mas é bastante importante, o que Jean-Marie Mayeur escreveu em Histoire du Cristianisme. Ora, citando de memória, como explicou, para muitos, os simples rurais e urbanos - não estamos aqui a incluir o clero que tinha outro nível cultural -, aqui na península Ibérica, muitos poderiam desconhecer o seu próprio Credo e as respectivas especificidades. Desconheciam, como diz J.-M. Mayeur, o que era de facto diferenciador face aos outros monoteísmos...

 

Sabendo-se que precisavam uns dos outros, e que em tempo de paz todos conviviam, acrescentamos nós. Numa palavra, eram verdadeiramente ecuménicos, no seu 'religare'  - já que, note-se, é este o sentido etimológico da palavra Religião.

 

Ou ainda - para os raciocínios e as lógicas registadas acima -, porque na base dos monoteísmos, o Cristão incluído, o Islão, e o Judaísmo, como nos é dado compreender, terá existido uma base comum que era o pensamento platónico ?***

 

Mais, a razão de terem criado diferentes sinais (visuais) como os que apresentámos no post anterior, e passaram à arquitectura; essa necessidade vinha exactamente da dificuldade de entenderem as ideias mais especificas de cada uma dessas religiões (diferentes), pois apesar das diferenças essenciais, eram também, cumulativamente, parecidas e muito próximas. Assim resumiram-nas em esquemas (desenhados e por isso visuais), como nós defendemos.

 

Em nossa opinião, os moçárabes, também designados cristão arabizados; ou dito de outro modo, os visigodos que permaneceram fiéis às ideias de Ário - e que não se converteram com o seu chefe Recaredo, no IIIº Concílio de Toledo em 589 - podem ter-se refugiado junto dos árabes, depois de 711...

 

E levaram consigo o sinal que os caracterizava, e é este:    

Image0001-mandorlamoçárabe.jpg

Mas só o contorno exterior, que designo "mandorla moçárabe", visto que no interior está a Cruz da Ordem de Santiago. Ordem a quem «pertenceu» a actual Igreja Matriz de Mértola.

O referido sinal vê-se em Mértola, sobre a rosácea da porta principal da igreja.

Image0001-mandorlamoçárabe-portaMatrzDeMértola.

A qual é parte integrante do Alçado principal da igreja

Alçado-MatrzDeMértola.jpg

(Imagens vêm do Boletim nº 71 da DGEMN, Março de 1953)

 

Igreja que, de lado, tem ainda um arco em ferradura, pouco ultrapassado, como Vergílio Correia explicou ser a maior diferença entre os Arcos Moçárabes e os Arcos Árabes.

Claro que (depois de tudo isto que escrevi):

 

1. penso que muitas destas informações seriam úteis a Cláudio Torres e aos estudos arqueológicos que vem a desenvolver em Mértola...

 

2. como podem ser úteis a todos nós, que precisamos saber mais de religiões e das especificidades de cada uma, ou o que têm em comum, num mundo em que um dos maiores países (Brasil) acaba de escolher um chefe com fortes ligações a uma Igreja.

 

3. por isso hoje, i. e., num tempo em que alguns acham que 400 caracteres servem para exprimir as suas opiniões (por vezes incrivelmente radicais), é fácil recordarmo-nos de que os monoteísmos do Iº milénio, aqui na península ibérica - cada um mais subtil e com mais especificidades do que o outro...! - tiveram que usar imagens (emblemas) para, de uma maneira prática e rápida se poderem diferenciar (quando isso era preciso)

 

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*«Coisa» que até tem um Estatuto legal, e se chama ECDU

 

**A minha formação de base é a arquitectura. Claro que depois chego à História, como tenho lido e estudado, muito de TEOLOGIA. A minha arqueologia, se posso dizer assim (?) não é debaixo da terra, é acima do solo. Está em tudo quanto é sitio, nas construções e nas urbes antigas.

Por exemplo, e como venho a dizer, as varandas - de ferro fundido e de ferro forjado - de Lisboa, estão repletas de imagens que estão nas artes tradicionais, e em obras antiquíssimas. Estão nos sinais dos reis e dos nobres, sinais que associavam às suas assinaturas, como é o caso dos entrelaçados que deixavam abaixo dessas assinaturas. Isto é, na imagem de oitos deitados e encadeados (como sucessivos símbolos do infinito) ficavam louvores a Deus.

Era esta a forma de «lembrarem» a origem divina do Poder que esses reis (e os nobres nos seus feudos) exerciam. Neste caso, o Direito Divino que recebiam por emanação, que é/foi de origem cristã: claramente, no Portugal nascido no século XII.

 

Mas que vinha de trás pois, por exemplo Constance Chlore - o pai de Constantino I, o Grande, o imperador romano que é considerado aquele que tornou o Cristianismo a religião oficial do Império Romano; repetimos, na Gália, Constance Chlore - como explica Michel Rouche -, recusou-se a obedecer às ordens de Diocleciano, para perseguir os cristãos. Com o pretexto de que esta religião estava já amplamente disseminada...

 

Assim, e continuando, a minha arqueologia é talvez (?) a compreensão daquilo que tem sido considerado e designado o Inconsciente Colectivo. Só que isso não são ideias vagas! É muito material, real e concreto, que existe, e é tangível.  O qual pode dizer-se constitui a Cultura Material, que foi sempre um produto da realização da Cultura (e do Património) Imaterial de cada povo.

 

***Veja-se em Politeia, o que Platão escreveu sobre o Demiurgo. Claro que o que deixámos acima somo nós a dizê-lo. Pois, como (nos) parece, isto já não é hoje uma querela (ou controvérsia). Mas, simplesmente, uma dialéctica (que produziu avanços), entre tese e antítese. E aqui estou a lembrar-me do que aprendi no liceu (foi há muito tempo, é verdade), sobre Hegel...

 

Por fim, e para acabar este post: Entre platonismo e aristotelismo, alguém hoje, quando olha para o passado, prende (exclusivamente) os rurais ao aristotelismo? Ou associa, como regra (sem falhas, nem excepções), os platónicos ao mundo urbano?

 

Nota: reparem que estas nossas perguntas também estão a subentender que de um modo muito directo  o aristotelismo ficou associado ao politeísmo, e o platonismo ao monoteísmo. Mas será assim? Foi assim?

 

RE: Aqui parece-nos (i. e., a mim parece) que alguma coisa aprendemos com a História. E aprendemos quer como civilização, quer como cultura (que naturalmente tem raízes...):

 

Mais: lembre-se que de S.Tomás de Aquino, se diz que «cristianizou» Aristóteles...

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29.10.18

ESTUDEI o melhor que pude esta questão teológica que esteve na origem do Estilo Gótico.

Comecei, praticamente, por um livro de António Quadros; passei depois a João Pinharanda Gomes e à Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura. Li muitíssimo mais sobre este assunto, até ter percebido que já não iria adiantar nada, se continuasse a le.... Pois seria sempre impossível abarcar tudo o que existe sobre este imenso assunto.

Mas uma das (minhas) melhores definições está num artigo da Enciclopédia Católica, conhecida como New Advent Encyclopedia.

Quase no fim do artigo consta um comentário que já não é Teologia, mas que é da ordem da HISTÓRIA, e relativo ao que, supomos (pois completamente aplicável), se passou na Península ibérica:

"It is a matter for surprise that so abstract a subject as the doctrine of the double Procession of the Holy Ghost should have appealed to the imagination of the multitude. But their national feelings had been aroused by the desire of liberation from the rule of the ancient rival of Constantinople; the occasion of lawfully obtaining their desire appeared to present itself in the addition of Filioque to the Creed of Constantinople. Had not Rome overstepped her rights by disobeying the injunction of the Third Council, of Ephesus (431), and of the Fourth, of Chalcedon (451)? (...)"

É verdade que não se diz acima que a "multitude" cuja imaginação foi «interpelada» pelas querelas era, exclusivamente, a de Toledo...

De facto, isso já somos nós que dizemos, quando sabemos o que se passou em Toledo, e o que significa a palavra imaginação.

Isto é, referimo-nos a "the imagination" exactamente aquela que acima está citada*; assim como, também o sabemos, aquilo que André Grabar escreveu sobre este assunto.

Ou seja, o "atrevimento" (hardiesse) que esse autor sentiu no comportamento dos Godos.

E aqui, com toda a franqueza, acredito que os leitores não tenham alguma noção - a mínima - do imenso prazer que este tema nos traz?

Por vermos como André Grabar esteve tão perto, tão perto - mas tão perto mesmo! - e não vislumbrou a solução do enigma (sobre as Origens do Gótico), que, mais do que todos, foi ele que o teve nas mãos e o deixou escapar...

Talvez antes dele, apenas o polimath que foi Caramuel Lobkowitz? O autor que no século XVII explicou a origem do Arco Quebrado, característico do estilo Gótico?  

Mas no texto acima, ainda a frase  "...so abstract a subject as the doctrine of the double Procession..." foi-nos (absolutamente) fundamental. Por ter lembrado que sempre que um assunto é abstracto, normalmente fazemos algum, ou alguns, esquema(s). Para nos ajudarem a exprimir ou a fazer fluir (como faz um dataflow diagram) o pensamento e as ideias.

Para terminar, ainda da New Advent Encyclopedia, aqui fica o último parágrafo:

"It is true that these councils had forbidden to introduce another faith or another Creed, and had imposed the penalty of deposition on bishops and clerics, and of excommunication on monks and laymen for transgressing this law; but the councils had not forbidden to explain the same faith or to propose the same Creed in a clearer way. Besides, the conciliar decrees affected individual transgressors, as is plain from the sanction added; they did not bind the Church as a body. Finally, the Councils of Lyons and Florence did not require the Greeks to insert the Filioque into the Creed, but only to accept the Catholic doctrine of the double Procession of the Holy Ghost."

Que o digam os leitores? Que o traduzam com rigor...

Porque para nós estes dois últimos parágrafos também levam a pensar que, quem escreveu este artigo da New Advent Encyclopedia, provavelmente sabe aquilo que, em teimosia e persistência, quase sem fim, nós tentámos confirmar nalgum autor.

Porque queríamos encontrar a frase escrita por alguém, em vez de - face ao método actual de investigar e de produzir conhecimento  - chegar lá por dedução.

circulos-ladoAlado.jpg

Só que, acontece que as imagens proliferam, com mais secura, ou, geralmente, mais «decoradas»: acima a fotografia de um pavimento de Conímbriga, em baixo esquemas nossos.

dOIScÍRCULOS-EM LINHA.jpgdOIScÍRCULOS-mANDORLA.jpg

Sendo que o primeiro esquema é o que está no meio do tapete de mosaicos de Conímbriga (ver acima), e o segundo correspondeu à evolução desse mesmo esquema. Feito para traduzir - o melhor possível - o significado de "dupla procedência do Espírito Santo".

Já agora..., aproveitem e vejam também o post anterior.

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*Uma definição - a de Imaginação - que devia ser bem explicada nas escolas de Design. Porque Imaginação não é, por exemplo, um fantasiar gratuito, mas sim um desenhar mentalmente (em acto que pode ser voluntário, ou não) aquilo em que se pensa. Por exemplo, muitas palavras, mas também frases, «apelam» de imediato à imaginação, quando logo que são ouvidas, automático e «mentalmente» pensamos numa imagem..

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25.10.18

Podem não acreditar mas é a verdade.

 

Para que se saiba, o título dos estudos do mestrado (anterior a Bolonha) em que fiz várias e importantes descobertas, e o qual deu origem ao (meu) livro sobre Monserrate* é: A Propósito do Palácio de Monserrate em Sintra - Obra Inglesa do Século XIX - Perspectivas sobre a Historiografia da Arquitectura Gótica (escrito entre meados de 2003 e a data limite - 30.9.2004).

 

Tudo começou, como já tenho explicado, com a Prof. Maria João Neto a relançar o tema que era seu (As Origens do Gótico) e no qual acharia que eu tinha que fazer algumas divagações (mas que para ela, digo eu, pensou... nunca seriam conclusivas?).

 

Assim a ideia da sra orientador está aqui registada graficamente.

O que MJN viu.bmp

Só que, aconteceu que, dado o meu pragmatismo, fui direita a uma enciclopédia saber qual era a característica essencial dos Godos para terem dado o nome a um estilo?

 

Foi nas páginas abaixo, assim nascido «da estupidez» de uma pergunta (minha) tão simples que tudo não mais parou de crescer. 

Godos-velbc.jpg

Godos-velbc-2.jpg

O que fiquei a saber dos Godos tornou-se logo depois num turbilhão de informação. Porque depois de assimilada, digerida, compaginada, sistematizada - já que de informação ao Saber a viagem tem que ser enorme - depois houve que consolidar todo esse (para mim) novo Saber... 

 

Um Saber que são as raízes da Europa e da sua cultura

 

Se quiserem fazer, mais ou menos essa viagem, depois de lido o texto chegam ao Arianismo que foi uma característica dos Godos. Vão à procura dessa definição, encontram o Filioque..., etc., etc., etc.

 

Começarão a interessar-se pela sua história religiosa, depois a saber como Clóvis fez de França o primeiro país Católico (da Europa), ao abdicar do Arianismo...

 

Em suma uma longuíssima história que para mim é um fascínio, já que, na discussão entre 2 concepções teológicas, ficaram criados 2 esquemas (visuais): um a traduzir o Perfilium - que era a visão arianista. Outro a traduzir o Filioque**. 

 

E esta é a que veio a ser a visão católica, quando, como dizemos, Carlos Magno decidiu "ser mais papista que o papa..."

 

Por nós, além de termos ficado com Históriaestórias para o resto da vida, ficámos também com gravíssimos problemas que, o tempo se tem encarregue de tornar cada vez mais claros, e quem sabe?, mais fáceis de terem solução.

 

Eram estudos para progredir na carreira docente de uma escola, mas, deu «no encalhar». Como um barco que se aproxima demais da costa, e, as rochas do fundo furam-no todo!

 

Mas, e porque, ainda estou viva! Também, thanks God a gozar uma boa parte do que a maldade alheia - na sua imensa mesquinhez - consegue ter de muito ridículo!

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* O livro está publicado pela Livros Horizonte como: Monserrate - uma Nova História.

 

** Leiam se quiserem, tudo isto, que está na Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Onde aliás a definição do Filioque foi altamente valorizada com uma explicação que fala em: «dinamismo» e em «estaticismo». Como se Deus - a Trindade, fosse mais facilmente explicada (e compreendida) pelo seu movimento.

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Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
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