Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
6.7.21

LIVRO.RETRATOS-J.-A.FRANÇA-E.jpg

Partindo inicialmente de um retrato do rei D. Sebastião, este post, por razões de falta de tempo tem vindo a ser acrescentado e adiado, pois de forma definitiva parece estar difícil conseguirmos acabá-lo?

 

Mas vamos aos poucos, e assim hoje acrescentam-se estes novos esquemas, ou IDEOGRAMAS - a designação que sempre temos preferido - e que estão nas duas obras que já foram referidas.

LIVRO.RETRATOS-J.-A.FRANÇA-6.jpg

Ideograma-trajeD.SEBASTIÃO-MNAA(4).jpg

Como se pode ver as nossas imagens - que intercalámos - são pouco cuidadas, já que se trata, verdadeiramente, de um método experimental. Isto é, em que um dia, se necessário, essas imagens serão passadas a limpo* 

Nas duas pinturas, assinalou-se com o número  2 , o que inicialmente parecia ser exactamente o mesmo Ideograma. Só que as vantagens do nosso método - que é também analítico - ao desenharmos com mais cuidado cada um dos ornamentos, isso permitiu-nos verificar, e depois ampliar, as diferenças que existem entre eles. 

FB.VÍTOR SERRÃO-27.06.2021-4.jpg

FB.VÍTOR SERRÃO-27.06.2021-5.jpg

Ideograma-PINTURA-DIOGO CONTREIRAS-RENDA(4).jpg

Sem lhes conferir, para já, qualquer significado, não deixa de ser notório que nos ornamentos da pintura atribuída a Diogo Contreiras (2ª e 3ª imagem, vindas de um post de Vítor Serrão do dia 27.06.2021) - os motivos assinalados a azul (e também com o número _______ 2 ) são diferentes. 

Na imagem superior, por exemplo, o motivo que está na gola (circular), acima do que aqui chamamos carcela (recta vertical), esse motivo forma e fecha 9 losangos; enquanto que na imagem inferior, se pretende  representar, num tecido tipo tule, um motivo - como se tivesse sido bordado - que forma 4 losangos. 

Expressamente aplicados sobre a parte superior das costas, base do pescoço/nuca, conferem à pintura - tal como as tranças e nos nós que estão no cabelo (bem penteado) - não apenas uma beleza sensível, mas também o que já temos designado por «beleza significante» (ou inteligível). 

Apesar de termos retomado o título do post anterior - "Sinais de Deus na Arte" - e de acharmos que sim, que terão sido sinais de Deus, também é verdade que as sucessivas desconstruções e recomposições das formas, a par de uma imensa polissemia; todas essas mudanças vão constituindo algo que é um bolo (ou símbolo = sim+bolo) tornando cada vez mais difícil a extracção de um único significado, para se tornar num complexo de significados...

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*Como vemos no trabalho fantástico que tem vindo a ser desenvolvido por Luís Lobato de Faria, preocupado por exemplo em arrumar os diferentes sinais de acordo com a sua estrutura geométrica. Mas as nossas duas situações relativamente a este tema são bastante diferentes. No caso do Luís pelo que tenho percebido encontra os sinais na paisagem. "Pégadas de humanos", como suponho (?) e é assim contado por Vitrúvio. No nosso caso partimos de um trabalho teórico - "à procura das origens do Gótico"  - no que seria uma etapa essencial, da nossa investigação, para se poder compreender o Palácio de Monserrate (segundo foi dito pela nossa orientadora). Portanto, há nas nossas pesquisas sempre um misto de informações interligadas, entre as imagens e os textos, que as podem explicar melhor, ou sobretudo justificar a sua presença nas várias obras. 

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8.6.21

É disso que contiuamos a escrever, mesmo que nem sempre aqui no blog, e muitas vezes se faça logo directo no FB.

Foi o que já aconteceu hoje.

Assim lêem lá mas a imagem fica aqui (em maior)

LIVRO.RETRATOS-J.-A.FRANÇA-6.jpg

Já preparada para um post (também maior),

... logo que haja tempo para o completar

COMO SE PODE VER, O TEMPO PARA COMPLETAR ESTE POST NÃO É AINDA HOJE (acrescido agora - dia 27.06.2021 - com materiais vindos de Vítor Serrão), mas estará cada vez mais próximo, como é lógico:

FB.VÍTOR SERRÃO-27.06.2021-4.jpg

FB.VÍTOR SERRÃO-27.06.2021-5.jpg

Acrescentando-se que as setas indicam (com o nº 2) os ornamentos semelhantes, que existem quer no retrato de D.Sebastião, quer na obra de Diogo Contreiras, de que Vítor Serrão escreve... 

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E sobre o "saber sem fronteiras", aqui fica: o significado de polymath (n.)

"person of various learning," 1620s, from Greek polymathēs "having learned much, knowing much," from polys "much" (from PIE root *pele- (1) "to fill") + root of manthanein "to learn" (from PIE root *mendh- "to learn"). Related: Polymathy "acquaintance with many branches of learning" (1640s, from Greek polymathia "much learning"); polymathic.

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1.6.21

Passámos a usar a designação ICONOTEOLOGIA depois de a termos lido num documento (livro) na biblioteca da UCP - João Paulo II

Aqui está o link para aceder a alguns dos seus trabalhos 

Eugenio Marino O.P.-2.jpg

 

E ainda o link para a obra de Masaccio - o Altar da Trindade 

 

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23.5.21

Em dia de Pentecostes fará sentido - ainda hoje? - lembrar representações da Terceira Pessoa da Trindade que não são a (ou em forma de...) Pomba?

Mas que são representações geométricas, simplesmente abstractas e anicónicas**, e que por isso agora ninguém lhes reconhece algum valor significante; menos ainda o valor que tiveram outrora.

Embora sejam representações que se vêem com enorme frequência, repetidas e enfáticas, estando por exemplo na imagem seguinte, numa porta na cidade do Porto: no que nós vamos chamando "georgian portuense".

2012-07-21-Pentecostes-2.jpg

2012-07-21-Pentecostes.jpg

E mais ainda:

Em dia de Pentecostes poderá fazer algum sentido lembrar que, neste mesmo dia, em 1122, em Zamora, Afonso Henriques se armou a si mesmo cavaleiro? Ou fará sentido lembrar que Portugal nasceu quando estavam activíssimas as primeiras sequelas da separação Oeste-Este? Fruto das discordâncias teológicas a que Carlos Magno deu ainda «mais fogo», e que acelerou ao levar para Roma - que o tinha feito imperador do Sacro Império no ano 800 - a vontade de que o Filioque fosse proclamado no Credo (mesmo), durante a Missa.   

Poderá assim ajudar-se a perceber alguma da Iconografia mais corrente, e as «imagens simbólicas» que hoje aludem ao nosso país, mas que outrora foram sinais, específicos, dos reis de Portugal? 

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* Tema e título inscrito para Doutoramento em Ciências da Arte, na FBAUL em Maio de 2006

** Sobre imagens tradutoras do Filioque, ver no nosso estudo - Monserrate uma nova História, Livros Horizonte 2008 - página 40. Quanto a imagens anicónicas temos às dezenas (chegando talvez às centenas?) tendo sido recolhidas para o que seria o doutoramento em Ciências da Arte, na Fac. de Belas-Artes de Lisboa. O tal que «teria sido, mas não foi» à conta dos boicotes de dois grandes catedráticos da Universidade de Lisboa. Grandes sim, ou seja maiores e enormes, sobretudo nos nobres atributos que são mais próprios de invejosos e medíocres.

E se um desses - Vítor Serrão - diz que ainda não escrevemos (o que ele não leu... portanto não deve saber ler?), e que por isso «manda vir», num tom que fica mesmo bem ao responsável do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras:

"Venha a terreiro, venha, venha! Apresentar as suas ideias, ... que são tão interessantes..." 

Já o outro, Fernando António Baptista Pereira, igualmente escalabitano (e ambos impregnados, ainda, dos resquícios de um marialvismo antiquado, jurássico e mal-disfarçado), repetiu-nos inúmeras vezes; tantas quantas as que conseguiu não ser pontual, ou nem sequer cumpriu os compromissos e as reuniões por ele próprio agendadas:

"... Não vai fazer uma História da Arte! Não vai fazer uma Historia da Arte!... Escreva sobre templos: escreva sobre o templo da pintura, o templo da fotografia, o templo do livro..." 

E assim, nestes estilos tão sui generis, ambos nos demonstraram como podem ser acolhedoras - essas instituições que se designam por Centros de Estudo e de Acolhimento: as instituições prontíssimas (como se vê) ao serviço do Saber.

Um Saber ou o Conhecimento que, é sabido, também se apresenta em geral como algo que é frágil, por vezes instantâneo e fugaz. Saber, quiçá, dificílimo de captar e de explicitar, arranjando para ele novas áreas e novas nomenclaturas (articuladas com tudo que já é conhecido). Como é por exemplo a Iconoteologia, de que um dominicano de Florença, escreveu. E na qual, é impossível não ver também, a enorme ligação que existe com a Heráldica. 

Saberes que eles, os tais PROFs super-dotados - muito acima de todos os alunos - por um lado ainda não captaram. Mas dos quais, se os cheiram no ar, então eles já têm logo as ideias mais perfeitas, as mais acabadas e as mais completas, daquilo que devem ser...   

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20.5.21

Porque será que Saúl António Gomes fez um artigo tão interessante quanto extenso, este - (PDF) Littera Pythagorae | Saul António Gomes - Academia.edu - quando o "Y" aparece na Arte, em tantas imagens, e é tão frequente? Mas não se vê logo? É preciso prová-lo, e com a máxima veemência?

Perguntamos, mas percebemo-lo bem, pois passámos, em parte, pelo mesmo...*

No caso já a seguir, é notório, pois está no centro da imagem, a qual é aliás estruturada pelo desenho do "Y". Mas, voltando a perguntar, será que em geral os investigadores da História da Arte, demasiado presos aos conteúdos dos textos, daquilo que lêem, e do que escrevem, por isso não se apercebem - quando passam para as superfícies das obras (incluindo as obras de arte) - que as letras têm sempre uma configuração? Ou seja, que as ditas letras - a"Littera"  que consta no titulo - têm um  desenho?

Não é agora a primeira vez que escrevemos sobre este esquema, e provavelmente não será a última; tal a riqueza que a imagem acima traduz. Está mal fotografada, é verdade, como já se explicou, mas isso não nos bloqueia ou impede de pensar sobre ela.

Menos ainda impede de lembrar, que há bem poucos dias se mostrou (neste post) como o mesmo esquema esteve na base de um arco que prolifera na arquitectura medieval. Arco esse que não é um mero detalhe ou vocábulo formal do primeiro gótico, mas o de uma fase mais decorativa: em geral por volta do século XIV, tendo depois permanecido...

Uma  análise ao artigo de Saúl António Gomes será feita noutra data (pois já se começou), e agora passa-se ao Credo de Atanásio, que, como é dito por vários autores, a imagem acima pretendeu traduzir.

Na Catholic Encyclopedia encontra-se (ver aqui) , numa versão que segundo é explicado foi transposta do latim original para a língua inglesa, no século XIX, pelo Marquês de Bute: 

"The following is the Marquess of Bute's English translation of the text of the Creed:

Whosoever will be saved, before all things it is necessary that he hold the Catholic Faith. Which Faith except everyone do keep whole and undefiled, without doubt he shall perish everlastingly. And the Catholic Faith is this, that we worship one God in Trinity and Trinity in Unity. Neither confounding the Persons, nor dividing the Substance. For there is one Person of the Father, another of the Son, and another of the Holy Ghost. But the Godhead of the Father, of the Son and of the Holy Ghost is all One, the Glory Equal, the Majesty Co-Eternal. Such as the Father is, such is the Son, and such is the Holy Ghost. The Father Uncreate, the Son Uncreate, and the Holy Ghost Uncreate. The Father Incomprehensible, the Son Incomprehensible, and the Holy Ghost Incomprehensible. The Father Eternal, the Son Eternal, and the Holy Ghost Eternal and yet they are not Three Eternals but One Eternal. As also there are not Three Uncreated, nor Three Incomprehensibles, but One Uncreated, and One Incomprehensible. So likewise the Father is Almighty, the Son Almighty, and the Holy Ghost Almighty. And yet they are not Three Almighties but One Almighty."

No entanto, por este outro link, podem aceder a uma versão diferente, já que é apresentada em latim e inglês (em simultâneo).

Na verdade, a leitura deste Credo, tanto ou mais conhecido como Quicunque Vult, mostra todo o cuidado que foi posto na sua redacção. O que nos lembra de imediato uma expressão de Umberto Eco, ao referir-se, num dos seus livros, às "subtilezas dos Teólogos Medievais"... Pois como se lê, e é impossível não o notar, trata-se de um texto que é todo ele cuidados e subtilezas.

E, francamente, é neste ponto que não me lembro, se foi ele - Umberto Eco? - que escreveu, ou depois nós que o deduzimos (ou até se é de algum outro autor... -, sobre a vantagem, e as possibilidades da geometria (e das imagens), para se conseguir, com a máxima eficácia, tornar mais claro o conhecimento de Deus **.

Imagens que, tem-se escrito repetidamente, em geral estão plasmadas, e constituem, os trabalhos a que hoje chamamos ARTE.

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* Como está escrito desde 2004, e portanto publicado em 2008, em Monserrate - uma Nova História, Livros Horizonte, Lisboa 2008, ver na p.38. Na p. 40 é ainda feita uma longa citação de André Grabar, em que este autor questiona as possibilidade de representação da Trindade, que ao mesmo tempo fosse também uma tradução visual do conceito do Filioque. Esse questionamento é muito interessante, e por isso ajudou-nos a encontrar o que de facto foi feito, já que existe, e é o "Y". Ou, de uma maneira mais especulativa, e exaustiva, é a imagem acima. Depoisnos nossos materiais recolhidos para a tese de doutoramento há bastante mais, de outras letras gregas, que não apenas o "Y"...   

** Mas acontece, sempre que escrevo esta expressão - "o conhecimento de Deus" - que também me divirto com todos os que vêm argumentar, sobre o desconhecimento de provas, ou de certezas, relativamente à existência de Deus. Estão todos certíssimos, sem dúvida, e (agora) não tencionamos ir por aí! Só que, todos esses se esquecem da enorme quantidade de materiais que existem - que não são poucos mas aos milhares - e que existem ainda, desde há milhares de anos. Materiais que foram produzidos exactamente em torno da procura de provas, de discussões, de querelas, ou obras feitas para catequizar. Incluindo a própria Arte, que era feita com esse objectivo: servir para aludir, mencionar, ou lembrar aos homens, o Deus Cristão...  

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12.5.21

Há dias, num outro post (e nesse post ver a ver nota 1), referiu-se o Credo de Atanásio, também conhecido como Quicunque.

É alias bastante interessante que hoje a Internet nos possa dar isto,  que aparece designado como "Quicunque em imagens".

Ora entre esse elenco de imagens, algumas das que constam (embora outras interessem muito pouco para esta questão) são praticamente iguais ao esquema que está abaixo.

ARCO-CREDO-ATANÁSIO-3.jpg

Mas se acima, nos círculos traçados a vermelho - que têm como centro, o do circulo menor alusivo a cada uma das hipóstases trinitárias; se neles vemos com toda a clareza, e sem margem para dúvidas, a origem do arco que está do lado direito. Na verdade também sabemos que a maioria dos Historiadores de Arte - eles que se consideram os «donos da Arte», e de tudo o que gira  à volta desta designação - essa maioria de estudiosos não vê*, como a imagem do lado direito nasceu na imagem do lado esquerdo. E portanto não vêem aquilo a que, concretamente, pretendia fazer menção.

Como não vêem o esquema que esteve na base da que foi designada Igreja de Santa Sofia de Constantinopla. E como também não vêem, por exemplo, em vários projectos de Guarino Guarini, os ideogramas medievais que geraram, em grandes linhas, os respectivos projectos arquitectónicos.

O Arco (do lado direito) é visível, por exemplo, nos arcos - apologéticos - do túmulo de Isabel de Aragão, de que já escrevemos**; mas também no Mosteiro da Batalha, no Palazzo Vecchio de Florença.

PalazzoVecchio.jpg

E ainda, ao  repetir os modelos de Itália, está também presente no Palácio de Monserrate em Sintra. Quer dentro, como mostra a fotografia seguinte, quer fora, como se vê nas duas folhas, da caixilharia de madeira, da maioria dos vãos.

Mons-imag11.jpg

Se escrevemos em título  "Arquitectura - antiga e medieval" ,  com  a presença notória deste mesmo arco no Palácio de Monserrate, e na obra que é do século XIX, assim também se prova a durabilidade - e o emprego que se continuou a fazer (significante ou não?, por vezes não sabemos...) - de todo um imenso vocabulário antigo, de génese antiquíssima, originado pela teologia cristã, e do modo como os povos foram "conhecendo Deus" ***.  

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*Nem tem capacidade para isso, embora devesse ser uma competência inerente às respectivas habilitações... Supõe-se?

**Ou ver aqui apenas a imagem,

***Expressão que há muito estamos a usar, para nos referirmos à catequese que a Igreja, fez e continua a fazer aos que a quiserem atender. 

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24.4.21

Da importância de conhecer História já se tinha escrito ainda não há muito tempo, e exactamente, lembrando-o a Vítor Serrão - que parece achar-se, ele sozinho, o «único dono» da História*.

O que escrevemos em 22 de Abril, está aqui e já agora, de novo também aqui, e por isso sublinhado (a azul):

"... a defesa de novas ideias que, forçosamente, numa sociedade evoluída, primeiro se estudam (com seriedade) dentro das instituições universitárias e depois vão passando para o exterior, a todos os que se interessam por saber mais:  

Em especial por saber da História - a disciplina capaz de ajudar a pensar, e de localizar, na vida de cada um de nós, o carácter do tempo em que vivemos. E também, certamente, para conhecer o tempo que nos antecedeu, e forçosamente deixou marcas: o qual (esse tempo) é/foi sempre uma espécie de inconsciente colectivo, actuante, sobre cada um de nós."

Entrando agora no assunto específico deste post - a questão do Filioque - é também conhecida como "dupla procedência do Espírito Santo". Sabendo-se que levou a enormes e prolongadíssimas querelas religiosas entre Ocidente e Oriente. Num tempo em que a política era dominada pela religião.

Embora nos seja difícil, hoje, perceber esta imensa questão que vem desde o século IV d.C., ao estudá-la com algum pormenor, percebe-se que ela originou - em termos gerais - o que se conhece na Arte e na Arquitectura como Estilo Gótico. Portanto, para um arquitecto, naturalmente, torna-se uma problemática fascinante:

E sobretudo muito intrigante! Por nos perguntarmos como tal pode ter acontecido?**

Das leituras já feitas, vamos vendo, crescentemente a importância do conhecimento mútuo - entre Ocidente e Oriente - e portanto a relevância da Academia florentina criada por Cósimo Médicis.

Não era a única dedicada ao estudo do grego antigo, e dos autores da antiguidade (como Platão) , visto que, segundo Pierre Magnard-  entre vários, quem viria a ser depois o Cardeal Bessarion - também criou uma Academia.

bessarion.jpg

Mas, afinal quem foi Bessarion?

As fontes existem como se encontra na Internet - ficando a saber-se que ficou para História como um Filósofo. O artigo seguinte vem (completo) do Dictionnaire du Moyen Âge, PUF, Paris 2002, pp. 160-161.

BESSARION, ~ 1400 - 1472

Nous ignorons encore le nom de famille et la date de naissance de Bessarion. Selon son propre témoignage, il est « né à Trébizonde », mais a été « élevé et éduqué à Constantinople ». Son père, Théodore, un roturier qui « travaillait pour gagner sa via », est mort vers 1455, et sa mère, Théodule, vers 1458. Bessarion fut le seul de leurs quinze enfants à leur survivre. Il reçut à son baptême le prénom de Basile. On ne croit plus au faire-part de décès qui le, disait né en 1403. Bessarion lui-même a inscrit dans son livre de prières qu'i1 fut ordonné diacre le 8 décembre 1425, prêtre le 8 octobre 1430. Puisque le droit canon grec exigeait qu'un diacre eût vingt-cinq ans, et un prêtre, trente, on en a déduit qu'i1 est né en 1399-1400. Pourtant, cette date contredit l'assertion du secré­taire et biographe de Bessarion, Niccolò Perotti, selon lequel Bessarion avait dix-huit ans ou moins en 1425, et la prétention de Bessarion lui-même selon laquelle il avait seulement commencé à étu­dier la rhétorique, une matière dévolue aux adolescents dans le curriculum byzantin, quand il publia ses premiers ouvrages en 1423-1425. On peut donc en déduire une troisième date de naissance possible, vers 1408.

En 1415, les parents de Bessarion le confient à Dosithée, archevêque de Trébizonde, qui l'adopte, et 1'emmène à Constantinople en 1416-1417. Dosithée place Bessarion chez d'illustres profes­seurs (Jean Chortasmenos, Georges Chrysococces). Vivant dans une communauté monastique à partir de 1415, Bessarion devient moine en 1423, et prend le nom sous lequel il est désormais connu. Le panégyrique de saint Bessarion qu'i1 écrit cette année-là et 1'éloge de 1'empereur Manuel II deux ans plus tard sont ses premiers écrits connus. Dans les années 1420, à Constantinople, Bessarion a produit quelques panégyriques, éloges, poèmes et lettres avant de partir pour Mistra, dans le Pélo­ponnèse, vers 1431. Là, il compose un traité d'éducation morale, mais surtout il étudie avec le célèbre platonicien Georges Gémiste Pléthon, que d'autres condamnèrent plus tard comme néo-païen, mais qu'i1 a toujours vénéré. Il est rap­pelé en 1436 à Constantinople, pour préparer le concile d'union en Italie.

Ordonné archevêque de Nicée le 11 novembre 1437, Bessarion s'embarque le 27 pour ]'Italie. Arrivé à Ferrare, il est choisi pour porte-parole des Grecs ; il prononce leur discours d'ouverture le 9 octobre 1438. Il avait lu Thomas d'Aquin, mais dans la traduction grecque. À la veille du Concile, il endosse explicitement la doctrine palamite de la distinction entre ]'essence divine et ses opérations, que les Latins considéraient comme hérétique mais que l'Église grecque avait officiellement acceptée. Au Concile, il défend contre les Latins l’inter­prétation grecque de 1'épiclèse (l'invocation de L’esprit-Saint après les paroles de la consécration dominicale) comme achevant la consécration ; et durant les premières étapes du Concile, il se fait l'avocat du rejet grec du Filioque introduit dans le Credo. Il n'y arrive donc pas comme un latino­phile. Mais croyant à la communion des saints, et voyant que les Pères latins enseignent la double procession du Saint-Esprit, il est convaincu par 1'étude des textes que les Pères grecs, spécialernent Basile, soutiennent la même chose. Au début 1439, après le transfert du Concile, à Florence, Bessarion accepte la position latine ; il devient un des princi­paux partisans de l'union. Le 13-14 avril 1439, il prononce son Oratio Dogmatica de Unione, où il expose son argumentation. Il est donc logique que les Grecs le choisissent pour proclamer l’union le 6 juillet 1439 dans la cathédrale de Florence.

En décembre 1439, alors que Bessarion est retourné à Constantinople, le pape Eugène IV le fait cardinal, sous le titre des Saints-Apôtres, près de 1'église desquels, quand la Curie revient à Rome en 1443, il conservera un palais jusqu'à sa mort. A la fin 1440, il réside à la cour pontificale, à Flo­rence. Il devient alors compétent en latin, mais ses premières années en Italie sont caractérisées par une série de traités grecs défendant l’union et le Filioque. Il se consacre aussi à des problèmes séculiers, envoyant vers 1444 une lettre à Constantin, le despote de Mistra et futur empereur de Cons­tantinople, pour le presser de réformer la société grecque, d'envoyer les jeunes Grecs apprendre à l‘Ouest les nouvelles manières de commercer, de pratiquer la métallurgie, la construction navale et les autres arts. En 1446, Bessarion, qui continue de porter 1'habit de moine basilien, devient le protec­teur des monastères basiliens d'Italie. Il  devient l'abbé des monastères basiliens de Grottaferrata, près de Rome, et de Saint-Sauveur, à Messine. En 1463, à Ia mort d'Isidore de Kiev, il devient aussi patriarche de Constantinople. II écrit à cette occasion l’Epistola Encyclica ad Graecos, sa dernière défense de ce qui était désormais une union avortée.

Peu à peu, Bessarion étend son influente à l'Ouest. En mars 1449, il devient cardinal évêque de Sainte-Sabine. Étroitement lié à l'ordre francis­cain dès les années 1440, en raison de leur enthou­siasme pour une croisade, il est protecteur des Franciscains en 1462. Mais le poste le plus éminent de sa carrière est celui de légat de Bologne, qu'il reçoit en 1450 et exerce avec succès jusqu'à la mort de Nicolas V en 1455. Il entre même dans le conclave en avril 1455 comme un des principaux candidats à la papauté. Le pape qui fut élu, Calixte III (1455-1458), et son successeur, Pie II (1458-1464) étaient les partisans résolus d'une croisade pour libérer Constantinople, tombée entre les mains des Turcs en 1453. Bessarion soutient énergiquement cette politique, voyageant en Allemagne et en Autriche en 1460-1451 comme légat pontifical pour obtenir des princes germaniques qu’ils se joignent à la croisade. En 1463, Venise déclare la guerre aux Turcs, et Bessarion réside dans cette ville comme légat à partir de 1463-1464. Il appelle alors Venise «une autre Byzance» Les Vénitiens le font membre de leur grand conseil en 1461 et l’inscrivent dans le « Livre d'or » (le registre de la noblesse vénitienne). Bessarion signe alors  « Bessa­rion Venetus»; à sa mort, il lègue à Venise sa magnifique bibliothèque, le noyau de la Bibliotheca Marciana.

Le pape Paul II (1464-1471) n'est pas partisan de la croisade, mais son successeur, Sixte IV (1471-1484), dont Bessarion a soutenu la carrière, commence son pontificat en tentant de relancer la croisade. En avril 1472, Bessarion voyage dans le Nord, pour une vaine tentative d'obtenir le soutien des cours de France et de Bourgogne. À son retour, il tombe malade et meurt à Ravenne dans la nuit du 17 au 18 novembre 1472.

Bessarion a échoué à sauver Byzance des Turcs et à réaliser 1'union durable des Eglises grecques et latines. Mais il réussit brillamment à sauver des débris de 1'héritage grec classique du désastre de 1453. Ses sept cents manuscrits grecs forment la plus grande collection de textes grecs de 1'époque. Dans bien des cas, il a préservé la meilleure ou l’unique copie d'un texte. Sa maisonnée fut le refuge d'émigrés grecs, depuis les érudits les plus distingués, comme Théodore de Gaza et Androni­cus Callistos, jusqu'à un essaim de nobles, de laïcs et de scribes. Il a aussi été le patron d'érudits latins capables de travailler en grec : Laurent Valla, Pie­tro Blabi, Niccolò Perotti. L'Academia Bessarionis, comme la nomme Perotti en 1453, a une envergure internationale, incluant le mathématicien alle­mand Ioannes Regiomontanus, le théologien fla­mand Henri Zoemeren, l’érudit espagnol Fernando of Cordova. Bessarion lui-même a joué un rôle essentiel dans la culture latine. Sa bibliothèque comptait quatre cents manuscrits latins, ce qui fait d'elle l’une des plus grandes de 1'époque. Il a lui-mêrne traduit Basile, Xénophon, Démosthène et Aristote: sa traduction de la Métaphysique d'Aristote est restée classique jusqu'au XVII, S. En 1469, il a publié en latin son œuvre principale, l’In Calumnutiatorem Platonis, une défense de Platon contre les attaques de Georges de Trébizonde, un Grec émigré. L'ouvrage reste, avec l’œuvre de Marsile Ficin, une grande source du platonisme au XVe s. L'un des grands textes sur la controve­rse Platon-Aristote à la Renaissance, il assu­rait à Bessarion une place dans l’histoire de la phi­losophie.

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*Esquecendo-se que no seu caso, o facto de «ter herdado» (de herança paterna) tanto conhecimento de História, não lhe dá o direito de desvalorizar o que é menos conhecido; ou, aquilo que até ele próprio conhece bastante menos! 

Mais, se defende a existência de uma cripto-história, aqui estamos perante uma questão - o FILIOQUE - que dificilmente se remete para debaixo da História: se torna subterrânea, ou inferior. Não saber do Cisma de 1054, por mais longe que vá estando, é, para um historiador/professor a verdadeira vontade de apostar na completa ignorância!

Enfim, nesta estória, percebe-se que da própria História - que vem ajudando a desvalorizar - , agora é ele que se apoia em Marcelo Rebelo de Sousa, para vir lembrar a importância desta disciplina 

Claro... um dia iria acontecer alguém ter que lembrar a importância da História (aos próprios professores)

**Como podem confirmar em Monserrate - uma nova história (ISBN: 978-972-24)

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8.3.21

Claro que se fica satisfeito ao verificar que há curiosidade ligada ao que vamos escrevendo, e que são muitas as visitas aos nossos blogs...

 

Aconteceu ontem com o que escrevemos, primeiro no Facebook, e já depois quando fazendo um apanhado se resolveu registar - talvez de maneira mais durável - num dos nossos blogs.

VillardDeHonnecourt.jpg

Neste caso fez-se esse registo acrescentando uma nova combinação de malhas (imagem acima), que foram obtidas nos folios e nos diagramas reunidos por Villard de Honncourt*.   

A imagem resultante, até a nós nos surpreendeu:

Terá sido isso que trouxe uma grande série de visitantes ao nosso blog? Aquele onde ontem coligimos todos esses elementos que nos pareceu dever organizar e registar, para assim estar mais à mão, e mais fácil de se aceder?

Ficam as perguntas...

Porque, frequentemente acontece-nos isto, realizar - de facto, e a posteriori - o maior valor de muitos materiais de que já escrevemos e publicámos.

É a questão das segundas leituras, já que vamos mudando, e quando relemos, um dia apercebemo-nos de novos elementos e de novas interpretações (de que esses escritos ou imagens são passíveis).

Enfim, interpretações que antes não tínhamos detectado, pelo menos em toda a sua dimensão.

É também o que se passa no texto seguinte, certamente «apanhado» no IADE, na BAQ, não sei em que livro? De certeza desde 2014 até Julho de 2019, período em que visitámos a biblioteca semanalmente, e com o objectivo de reunir o máximo de informação. 

Nesse texto, como se pode ler - e agora sublinhámos - mencionam-se o que são imagens que funcionaram (ou funcionam ainda?) como mapas mentais.  

mapasMentais-2.jpg

E pensaremos talvez - pelos tempos dos verbos... - que mapas mentais são coisa exclusiva da actualidade. Será assim? Serão?

Absolutamente! Não concordamos.  E talvez tenhamos hoje (todos, ou pelo menos alguns de nós?) a bagagem suficiente para perceber que os fenómenos mentais** - a reflexão, o pensamento, o «cogitar»; para podermos ver que estes fenómenos, obviamente, não são exclusivos da contemporaneidade.

Que os antigos reflectiram, e muito, sendo que o que hoje somos e pensamos, está ancorado lá atrás. Lembre-se a frase "somos como anões aos ombros de gigantes", que há bem pouco tempo também nos mereceu um outro post 

No entanto, é forçoso concordar que hoje estamos com alguma vantagem relativamente aos sábios que na Antiguidade e na Idade Média, criaram e usaram formas e imagens - por exemplo, muitas que são de raiz geométrica e a cujo estudo nos temos dedicado. Imagens que agora vemos que foram algo semelhante a "mapas mentais" (e também por isto lhes temos chamado IDEOGRAMAS). 

E essa nossa vantagem resulta do facto de termos muito mais informação, e de podermos perceber o que se passou há vários séculos, ou até há milhares de anos. Percebemos como então - tal como hoje se faz - usaram diferentes tipos de diagramas, que frequentemente serviam para ajudar o pensamento a pensar.

Por fim, temos a acrescentar, ou a corrigir no que está acima sobre MAPAS MENTAIS, na frase -"...forma de representar graficamente em duas dimensões..." -  aqui há que acrescentar que as representações não foram apenas bidimensionais, mas muitas vezes tridimensionais: 

Imprimindo-se assim na arquitectura as ideias que bidimensionalmente estavam nos pavimentos de mosaicos, nos tecidos, nas superfícies dos paramentos (de parede); nos vitrais, em pinturas, em arcas tumulares, em relicários... E depois também tridimensionalmente na ourivesaria, etc., etc., etc.***

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* Aqui note-se que Villard De Honnecourt compilou várias imagens, algumas soltas, outras já arranjadas em padrões. Na imagem que está acima, da nossa autoria, algumas repetições, e depois a formação do padrão, fomos nós que a fizemos. 

** Inclusivamente muita literatura permite-nos isso. Pensemos em Saussure, em Noam Chomsky (e as suas ideias essenciais, por exemplo resumidas e divulgadas em dicionários...); ou no que se pode ler directamente em António Damásio: um autor que tem tido a preocupação de fazer divulgação científica, i. e., acessível a todos.

***Naturalmente não temos dúvidas que estas nossas ideias revolucionam a História da Arte, como é mais conhecida. Por isso pensamos em E.H. Gombrich que escreveu The Story of Art , a qual termina assim: "But is not this constant need for revision one of the thrills of the study of the past"

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12.2.21

Assim, com este título - porque é o que se passa - desta forma damos continuidade ao post anterior

Mas damos também continuidade ao que encontrámos no Facebook, em Lisboa Mítica, num post da autoria de Paulo Nogueira.

Aí deixámos logo um comentário, e depois ficámos a pensar ainda mais nesta questão.

Aliás, isso passa-se na Arte e também se passa na Ciência: há assuntos que não somos nós que trabalhamos neles; que os estudamos e que os investigamos. Ao contrário, um dia descobre-se que são eles que trabalham em nós...

Nos nossos posts no facebook, aqui em Iconoteologia e também em Primaluce, a questão do Filioque, já por diversas vezes (que são imensas) a abordámos. 

Tal como, pela primeira vez, quando a encontrámos ao estudar Monserrate. Está no nosso livro onde a podem encontrar em várias páginas. Por exemplo pesquisando por aqui (pois são sete as páginas onde o termo foi usado). 

Ou se preferirem, comprando o livro.

Mais: nunca lá teríamos chegado - a toda esta questão teológica, que se torna fantástica e muitíssimo entusiasmante (sobretudo quando a vemos estampada e construída nas mais variadas obras), - se não fosse o briefing da nossa orientadora para os estudos de Mestrado*: "Você só pode perceber Monserrate. se perceber as Origens do Gótico."

E agora para resumir, voltando ao post de Paulo Nogueira, nele encontrámos  um desenho do 15º rei de Portugal,  que foi D. João III.

É a figura seguinte:

D.JoãoIII-D.bmp

E depois neste desenho um detalhe que já conhecíamos - a imagem de dois círculos entrelaçados - como se fosse feita a partir de ramos e elementos vegetais, a qual não poderia (nunca) escapar-nos. Ou sermos insensíveis à sua presença  :

D.jpg

É a memória a «colaborar», por existir, muito semelhante, no retrato seguinte do Infante D. Henrique. 

Imagem que - quer pela divisa do Infante, "talent de bien faire", quer pela presença dos entrelaçados - também já nos tinha fascinado e um dia obrigado a escrever sobre ela

O tempo o dirá! Alguém há-de estudar e confirmar tudo isto, que é, já agora, demasiado lógico e demasiado importante, para os profs/doutores da Universidade de Lisboa continuarem «a fazer vista grossa»**.

Para nós tratam-se de insígnias, da nobreza e da realeza, que, quando foi necessário - e com a mesma lógica com que acontece noutros estilos, e noutras culturas - as imagens da caligrafia, ou de esquemas gráficos, ganharam tridimensionalidade e passaram a ser elementos construtivos e detalhes arquitectónicos.  

talent de bien faire-300ppp.png

* Os tais estudos em que uns grandes doutores do IHA da FLUL se acharam no direito de tratar a aluna como aquela criança a quem se diz -"olha, vai ali ver se chove?" 

** Embora, por outro lado, também não seja uma enorme surpresa esta incapacidade de ver, de quem não foi treinado para isso... 

link do postPor primaluce, às 19:00  comentar

23.1.21

Quem nunca teve um daqueles impulsos que nos leva a comprar mais um livro? Pior: um daqueles livros de que talvez tenhamos ouvido falar, mas que nada garante se venha a tornar num fiel amigo de muitas horas de leitura...

Em resumo, quem não levou para casa mais um volume que não tem espaço na prateleira? E do qual quem sabe, vamos apenas extrair um dia uma frase curtíssima para citar? Frase importante, sem qualquer dúvida, mas que poderíamos simplesmente recolher numa biblioteca, se lá tivéssemos ido, se lá o tivéssemos visto (ao livro), se lá, algures, fosse motivo de curiosidade e se lá o tivéssemos aberto.

É mesmo assim, são muitos ses, muitos os acasos! A fazer-nos lembrar Jacques Attali e o que escreveu sobre labirintos: concretamente Chemins de Sagesse, traité du labyrinthe. E aqui, "tout court", os labirintos que são, ou foram, como voltinhas inesperadas da nossa vida, que, sem se saber como, nos levaram a qualquer coisa de importante, que pode ter mudado (ou vir a mudar) as nossas vidas.

jacquesAttali-labirintos.jpg

Aconteceu com o livro abaixo, trazido da Bertrand, depois da troca, de um outro que já tínhamos lido, e que alguém nos dera. Foi antes do Natal, ficou em cima de uma cadeira, à espera de ter um sítio ou um destino...? Até que um dia, há que arrumar: "O que está aqui a fazer este livro, que nem sequer abri? 

capa-LatimDoZero-a.jpg

Claro que não vou aprender latim... Mas as semelhanças com o português são tantas; e o latim estando na raiz do pensamento, como sabemos, claramente, que na relação que sempre houve entre palavras e imagens, muitas dessas imagens, referentes a palavras passaram para a arte..."

Foi então que com calma, pronto, lá o abri. O Latim do Zero.

Mero acaso, ou talvez não, bem no meio do livro, na lição nº 33. E com a dita calma. aquela que nem sempre temos para não ler em diagonal - mas sim a tentar absorver o que estava a ser percorrido pelos olhos. Foi então que quase no fim da página apareceu aquilo em que tanto temos pensado. Horas de reflexão, nunca de seguida, mas desde 2001:

A expressão do invisível.

O que se proclama no Credo cristão, quando sobre "as coisas visíveis e invisíveis", dizemos aquilo em que acreditamos. E aqui chegados, claro que pensamos no chamado Símbolo dos Apóstolos, e depois na sua nova formulação (cerca de três séculos depois) que ficou designada como Símbolo de Niceia-Constantinopla. capa-LatimDoZero-liçaonº33-b.jpg

Ou seja, no nosso caso pensamos - e mentalmente, é mesmo de relance - na passagem que se fez da cultura judaica para o Império Romano, quando à sua frente estava (a imperar) o imperador Constantino. O que ficou conhecido como Constantino Magno, filho, de Constâncio Cloro.

Pensamos, com mais ou menos tempo, nas questões (imensas) surgidas à volta da divindade de Cristo, e o que sobre esse tema se escreveu, e se discutiu. E por isso se fizeram imagens, a que hoje chamamos ideogramas. Imagens simples ou compostas que como verdadeiros datafow diagrams ajudavam a pensar...

Pensamos nas diferentes concepções trinitárias - e naturalmente nos respectivos ideogramas -, que, como sabemos, em grande parte, tiveram os seus fundamentos no Evangelho de João**. Ideogramas que hoje estão, muitos deles, plasmados/estampados (ou "built in") em muitas edificações. Principalmente em igrejas.

E a lição de Latim nº 33 - foi para lá que nos levou, e como fazem as paredes estreitinhas de um labirinto, que não nos deixe recuar - mostrou ainda melhor a ideia (conceptual, filosófica) que está subjacente ao Espirito Santo...

capa-LatimDoZero-liçaonº33-e.jpg

E assim, mais um passo e lá vamos nós, para o único volume (que por acaso temos) da tradução da Bíblia por Frederico Lourenço. Transitámos da passagem acima para o excerto referido (João 3:8). E aí lê-se:

"O sopro, onde quer, sopra. E ouves a sua voz. Mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espírito"***.

Depois desta frase, no mínimo, pensamos em rosas-dos-ventos, no octógono, numa torre de Atenas de que já escrevemos; e forçosamente em André Grabar.

Um dos primeiros autores onde lemos sobre as diferente representações do Espírito Santo, como já citámos em Monserrate uma Nova História (ver p. 40) e aqui se segue. I. e., exactamente como encontrámos em André Grabar, em Les Voies de La Création em Iconographie Chrétienne (ed. Flammarion, Paris 1979, pp.111-2):

“...Le cas de la troisième personne de La Trinité est intéressant. A la période qui nous concerne, il y avait je pense, un seul symbole du Saint-Esprit, la colombe. Elle apparaît comme nous l’avons vu, au Ve siècle, au moins dans une scène du baptême du Christ (sur une mosaïque du baptistère des Ortodoxes à Ravenne), et dès le début du Ve siècle,  sur le trône de Dieu (mosaïque de Santa Prisca, à Capua Vetere). A part quelques rares répresentations de la Trinité, les imagiers de la fin de l’Antiquité ne paraissent pas s’être posé le problème d’une image du Saint-Esprit qui tiendrait compte de tout ce qui, selon les théologiens, définit sa nature, et en particulier ses relations avec le Père et le Fils. Cette partie du Credo du premier Concile Œcuménique n’a pas trouvé d’écho dans l’art contemporain, et cela devait être souligné, car cette lacune est significative de la distance qui séparait la grande théologie de l’époque de l’iconographie contemporaine. Mais ce qui advint de l’unique schéma iconographique alors utilisé (la colombe) est aussi curieux : Cette allégorie provient bien sûr du texte évangélique qui décrit le baptême du Christ ; il faut cependant reconnaître qu’elle est archaïque, surtout si on la compare aux autres images théologiques, et qu’elle est plus proche des tout premiers symboles chrétiens, comme l’ancre et l’agneau. Ces allégories anciennes se trouvèrent en général remplacées par des figures humaines à partir du quatrième siècle ; mais la colombe du Saint-Esprit resta, et sert encore aujourd’hui à désigner la troisième personne de la Trinité. Les imagiers ont du tacitement reconnaître que le sujet allait au-delà des moyens dont ils disposaient. Néanmoins, même en conservant la colombe symbolique, les artistes auraient pu montrer la procéssion du Saint-Esprit, a fin de traduire le Credo. Ce fut fait d’innombrables fois au Moyen Age. Dans combien de cas voit-on la colombe quittant la main de Dieu Père ou placée de façon à exprimer le filioque c’est-à-dire que le Saint-Esprit procède tout à la fois du Père et du Fils! L’Antiquité semble-t-il, n’a jamais effleuré le sujet…"

No fim resta acrescentar que apesar de A. Grabar o ter dito expressamente desta maneira - "...les artistes auraient pu montrer la procéssion du Saint-Esprit, a fin de traduire le Credo"  - na verdade foi ele, André Grabar, que não viu muitas outras representações, diferentes, do Espírito Santo: imagens que não eram, e não são, a Pomba 

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*Este titulo - "O Espírito inspira onde quer" - é adaptação nossa, feita com a máxima liberdade, a partir de uma frase de Frederico Lourenço: "O espírito, onde quer, espirita". Está nas notas ao Evangelho Segundo João, na p. 333, do vol. I,  Bíblia, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos. 2ª ediçáo, Quetzal, Lisboa 2018.  

** E ainda de relance, podem passar, mentalmente, diferentes escritos feitos a propósito, por exemplo, dos Painéis de Nuno Gonçalves, ou até do quadro da NG, conhecido como The Ambassadors de Hans Holbein

*** Ver op. cit., p. 332

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E sobre o latim hoje (14.02.2021) acrescenta-se este filme

link do postPor primaluce, às 18:00  comentar


 
Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
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