Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
20.5.19

Este livro, da autoria de Mark Gelernter - Arquitecto, Professor da Universidade do Colorado (Denver USA) - é talvez o melhor que conheço dedicado à História da Arquitectura *.

 

Mas, pergunto-me:

 

Quem o lê não ficará convencido que se trata de uma História da Filosofia, muito resumida?

 

Não, não é piada! Compreenderá como em cada época, as principais ideias - traduzidas em Ideogramas de base geométrica - influenciaram as obras?

 

A razão para termos percebido e adoptado a palavra, já que, frequentemente, a Arte (e também a Arquitectura), foi uma verdadeira ICONOTEOLOGIA**? 

 

E apesar de não ter lido o livro todo, ou de nem sempre estar de acordo com o seu autor, é no entanto forçoso reconhecermos a sua imensa qualidade. Razão porque o citámos, e nos apoiámos, nas suas explicações***:

 

Para abrir, desenvolver - e depois passar a defender -, as novas ideias que formámos sobre Monserrate. Assim como relativamente a outras obras, muitíssimo mais recentes...

 M.Gelertner.jpg

 

*Ver  https://www.architectmagazine.com/aia-architect/aiavoices/denvers-dean_o:

Onde Mark Gelernter exemplifica alguns dos desafios que serão colocados aos futuros profissionais:  "(...) area, which I’m really excited about, is “enduring places.” It’s the logical extension of sustainability, in encouraging the adaptive reuse of existing buildings. This brings together our historic preservation programs with our sustainability initiatives, and it encourages a renewed look at traditional languages of design. We now partner with the Institute of Classical Architecture and Art to provide a certificate in classical architecture."

 

**Palavra que foi inventada por Eugenio Marino, OP. Ler também sobre a existência de uma Histiconologia , seguindo uma concepção de Laurent Gervereau.

 

***Concretamente a sua ideia de uma "estrutura divina" (ou Deus) que em geral deveria ficar plasmada nas edificações.

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9.5.19

...e  se não estou a ensinar é porque não querem!

 

Ou será que alguém na nossa situação – com mais de 40 anos como docente de uma escola de Design - ainda um dia vai ter que explicar tudo isto, «tintim-por-tintim»? (qual tribunal da inquisição?, e nele provar, diferentemente do que «se aceita» em História da Arte, na FLUL, que as imagens têm a capacidade de falar...)

 

Como as imagens - e os esquemas desenhados, como aprendido na ESBAL - que as pomos ao serviço da Arquitectura (bem como do seu desenho e concepção), podem reflectir e traduzir o Pensamento?

 

Como num projecto as imagens justificam, bem antes de se fazerem os cadernos de encargos, ou de existirem as medições e os orçamentos; como elas justificam e dão todo o fundamento aos milhares ou milhões de euros que se hão-de gastar, numa qualquer edificação? Ou numa obra de urbanismo?

 

Se as imagens têm esta capacidade decisória para construir o futuro (*) -  em projectos, em planos territoriais e de ordenamento -, porque não podem essas mesmas imagens ter a capacidade para explicar/relatar, historicamente, as diferentes mentalidades (no plural, porque houve várias) que existiram no passado?

 

Será que ainda vou ter que traduzir este texto fantástico de Rudolph Arnheim (ver imagem abaixo**)?  

 

Texto onde explica, no fim, na frase que sublinhámos, que quando há desenhos que são IMAGENS MENTAIS (ou relatos de processos de pensamento apoiados nas imagens), que esses materiais são bem-vindos. E mais, que se deseja (altamente) que não sejam nem perdidos nem desprezados, dada a sua «fragilidade»...

Será que teremos ainda um dia, de provar tudo isto?    

 

Será que ainda vamos ter de explicar que em geral – numa língua com base na geometria (língua que existiu, mesmo que informalmente) – que o triângulo foi usado para designar a Trindade Cristã, e que o quadrado (numa «lógica muito inesperada», por ser três mais um), significou a Virgem, a Mãe de Deus, que frequentemente era designada por Théotokos? (***)

 

Será que ainda vou ter que explicar/fundamentar toda a produção, «produzida» a propósito do Palácio de Monserrate? Fabricada/produzida» então (entre 2001 e 2004) com imenso estudo é verdade. Mas sobretudo com a liberdade e a espontaneidade, de quem já tinha mais de 25 anos de vida profissional? E, em que cada projecto (note-se, porque isto acontece na vida de todos os arquitectos projectistas...) acaba no fim com a assinatura do autor,  aposta num Termo de Responsabilidade?

 

Terei que provar toda a (minha) honestidade posta nos estudos feitos a propósito de Monserrate?  

 

Enfim,  perante tanta justificação (quiçá necessária?), aqui tenho mesmo que me lembrar de Rogério Mendes de Moura, o meu Editor (Livros Horizonte), que, pediu-me para retirar do livro a maioria das chamadas notas de rodapé. Porém, na sua opinião, essa teria que ser uma tarefa bastante cuidadosa, pois para si - como me fez ver - algumas dessas notas eram, não a essência, mas, considerava-o, um dos aspectos positivos e originais do trabalho que foi realizado.

RUDOLPH-ARNHEIM-def..jpg

(*) Pessoalmente reconheço-a - e acho que essa capacidade de desenhar/designar o futuro, julgo, é uma característica da maioria dos Arquitectos e dos Designers? Mas, pode ser que muitos outros, sobretudo nos Institutos de História da Arte, não a reconheçam? O que naturalmente nos leva a outra pergunta, e esta boa para Reitores:

"Para que existem cursos e até mesmo departamentos de Arte, em Escolas Superiores e em Universidades se o Estatuto que conferem à imagem é de absoluta menoridade? Como se as imagens nunca fossem falantes... Até mesmo as Imagens (ditas) abstractas, como é para a maioria de nós todos o alfabeto e os caracteres do chinês, do japonês, do coreano...?"

 

(**) Extracto obtido em google books 

 

(***) Como deixámos no nosso trabalho. No que foi uma via em direcção ao que muito mais tarde (século XIX) veio a ser a sua definição/consagração (dogmática) como Virgem Imaculada.

Ver ainda aqui uma selecção Google

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24.4.19

 

Como o nosso post no facebook (14.04.2019 - com fotografias da fachada da nova Biblioteca de Birmingham*) nos inspirou para muito mais:

 

A ir mais longe, ligando algumas ideias que até agora, explicitamente, aqui nas redes sociais ainda não se tinham associado.

 

Mais do que nunca lembrámo-nos da ideia de “UMA ESTRUTURA DIVINA” (destacada em maiúsculas) de que Mark Gelernter escreveu. Na frase:

This medieval preocupation with divine structure held equally true for architectural design

que deixámos já em Monserrate uma nova História (escrito em 2004). E dez anos depois (2014) retomámos, em https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/sources-of-architectural-form-e-de-como-73803

 

Mas ainda, sobre ESTRUTURA DIVINA e o UNIVERSO, com o qual Deus se fundia (e confundia - por ser a sua obra), somos levados a pensar em James Ackerman e o que escreveu a propósito das discussões em torno das diferentes campanhas de obras da Catedral de Milão.


Também sobre este assunto, e sem ter desenvolvido demasiado, claro (guardando para outras ocasiões), já deixámos alguma reflexão em https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/ars-sine-scientia-nihil-est-79389.

 

Por fim, ligando aos quadrifolios ou culots, veja-se como a leitura da forma, ou, alternativamente, a leitura do fundo nos dá imagens diferentes:

yo4.jpg
Odrinhas.jpgA 1ª imagem é um desenho nosso, e acima v
ejam-se, as designadas "estelas discoideias" , que foram empregues como cabeceiras de túmulos. Podem-se ver, como é este caso, no Museu de Odrinhas (mas também em Beja, por exemplo...) 

outroquadrifoil.jpg 

* Nova Biblioteca de Birmingham que já foi considerada  (ver aqui) "the largest public cultural space in Europe"

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16.4.19

Prevendo já o lado mais positivo (que há-de existir, mas também realista) sobre o que ontem aconteceu em Paris, lembre-se numa visão actual, o que hoje são as catedrais:

 

«Les cathédrales se dressent au milieu du vain bruit de nos cités et sont comme des voix qui crient dans le désert» *

 

Como sabemos Notre-Dame  de Paris tem sido uma das mais emblemáticas catedrais de França, e portanto, apesar do «esquecimento geral» que se constata, tem sido até um dos monumentos mais visitados em todo o mundo.


Como mostra o mapa abaixo, em França são imensas as igrejas e catedrais, todas elas matéria ou materialização de uma Cultura (não estamos a referir uma religião) , que praticamente já ardeu, numa combustão lenta...

E muito poucos têm querido saber das cinzas, ou dessas obras, deixando-as manterem-se como verdadeiras vozes "a gritar no deserto..." 


De entre esses poucos sabemos da existência (e portanto para nós destaca-se) do Pe. Patrice Sicard - cónego e capelão de Notre-Dame – que é o autor de várias obras de divulgação de Arte e Arquitectura.

Com maior relevo, principalmente, para os estudos aprofundadíssimos que fez e onde explica como dois documentos escritos De Archa Noe  e Libellus de Formatione Arche ** estiveram relacionados com a edificação e concretização das maiores igrejas e catedrais, não só de França, mas também de toda a Europa. 


Igrejas e Catedrais, que, como ficou registado no século XII - primeiro por escrito e só depois foram edificadas (isto é materializando esses escritos - como acontece hoje num normal projecto de arquitectos) - , elas foram concebidas/pensadas por Hugo de S. Victor (da abadia de Saint-Victor e autor desses escritos) como Arcas da Sabedoria ***.

EDitions-FRAGILE-.jpg

Image0159~-b.jpg

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As duas páginas acima vêm de Hugues de Saint-Victor et son École, por Patrice Sicard, ed. Brepols, 1991, ver pp. 290 e 291. Em que a última página é um mapa que a FCT e os decisores dos seus «painéis científicos» deveriam conhecer. 

Para não atropelarem ou desconhecerem os saberes do passado, e as suas correspondências para a actualidade. Já que os saberes de hoje, se filiam nos antigos (embora muitos não saibam como):

 

Ou, nem sequer o papel que tiveram as Escolas Catedrais na sua ampliação e divulgação

 

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* Ver aqui


** Esses escritos foram um Tratado de Arquitectura, um Tratado de Teologia, um Tratado de Teologia e de Arquitectura (simultâneo)? Ou são duas obras separadas (embora articuladas entre si)? Ver também estes post já com alguns anos: https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/os-tratados-da-arca-de-noe-de-hugo-de-87506

e https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/ainda-em-torno-da-obra-de-hugo-de-s-44496

 

*** Como consta no título (em latim):

 

DE ARCHA NOE PRO ARCHA SAPIENTIE
CVM ARCHA ECCLESIE ET ARCHA MATRIS GRATIE 

 

Sendo o respectivo autor (também designado em latim) HVGONIS DE SANCTO VICTORE

Hoje os espaços do Saber e da Cultura são outros:

 

Embora ainda se sirvam, e como já mostrámos, da iconografia medieval

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17.2.19

... num doutoramento, relativo ao emprego de vocabulário visual (abstracto) de origem geométrica, nas  obras do culto e da liturgia - ou da Arte Religiosa, Cristã.

 

Esse alguém teria de ter, com certeza! - para no final poder deduzir conclusões relativas à investigação e ao trabalho feito -, um enorme manancial de imagens.

 

É o que se passa com a imagem seguinte (uma dessas muitas): a fotografia de uma patena francesa do século VI, onde, no centro da cruz foram dispostos vários "8" deitados, ou ao alto, significando o Infinito-Deus.

PatenaSimboInfinito.jpg

Há portanto nesta imagem* - ou é assim que a interpretamos - várias leituras simultâneas, como se fossem em camadas, i. e., "...des couches de signification ou des détails d'aspect sensible..." como escreveu Jean-Paul Sartre em L'imagination**.

 

E vêmo-las:

A do belo efeito visual, sem mais; certamente o fascínio pelo brilho do ouro. Os corações, nos 4 cantos que um dia merecem outra explicação. E todo o trabalho ornamental, na bordadura, em que a imperfeição da obra artesanal, nos remete para o esforço de perfeição, que sempre houve, no que foi uma imensa vontade de criar beleza: Alguns autores referem "a volição artística" . A que Aloïs Riegl estudou meticulosamente (em El Arte Industrial Tardorromano, edição Visor, Madrid, 1992), e que Siegfried Giedion, e também Otto Pächt sublinharam.

 

Claro que a cruz onde se dispõem oito "8" é o centro da composição, e também nela se fazem várias leituras. Não é uma cruz grega (de 4 braços iguais), e por isso é dita cruz latina.

 

E por outro lado, não sendo uma cruz pátea  - ver o que é nos dicionários de símbolos, mas ver também o que esses não dizem, que é o modo como a cruz pátea se associa formalmente ao que os franceses chamam, e vêem, como culots (cistercienses).

 

Mas assim, e embora não exista um alargar significativo dos braços da cruz, como é tipico da cruz pátea, a cruz desta patena, consegue ser um compromisso visual. Pois lembra algo que não estando, totalmente na imagem, está em parte.

Ou seja, alguns, os que estão alertados para os significados teológicos mais especificos de algumas das formas (e suas correspondências, que não eram codificadas mas hoje é como se o fossem...); esses mais habilitados, farão, como supomos leituras mais completas e ricas.

 

Por nós consideramos esta patena absolutamente fascinante (pelo que sintetiza e reúne), e ainda não nos esquecemos que seria um dos óptimos e claríssimos exemplos, do emprego do "8" como imagem de Deus.

 

Associada a ela vêm outras questões: que nos lembram toda a formação que os ourives tinham de ter para produzirem obras essenciais ao Culto e à Liturgia. 

 

E vem no fim, para acabar este post, a ideia tão simples - mas que para muitos é ainda estranhíssima (embora possa ter toda a lógica!?) - de D. João V ter ido buscar o alemão Johann Friedrich Ludwig. O que ficou depois conhecido, em italiano, como João Frederico Ludovice: um Ourives para projectar a Basilica de Mafra.

 

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*Ver em 20 Siècles en Cathédrales, Éditions du patrimoine, Paris 2001.  

 

**Edição QUADRIGE-PUF, Paris 2003, p. 88. 

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12.2.19

AINDA SOBRE A QUESTÃO DO FILIOQUE e as imagens (abstractas) que traduziram o que foi um dogma cristão:


No nosso post anterior a imagem escolhida pela Wiki é já bastante eloquente relativamente às representações visuais da Trindade Cristã. Mas, é ao mesmo tempo narrativa e icónica.


Ou seja, adopta representações comuns (humanas, naturalistas ou icónicas) para Deus Pai - um idoso; para Deus Filho-Cristo - um jovem; e para o Espírito Santo (mais) normalmente representado, também de modo naturalista, pela Pomba.


Porém, adopta também - e assim reforçando visualmente a narrativa que se quer fazer sobre o Deus Cristão, Uno e Trino - aquela que foi uma imagem abstracta (criada talvez no século IV, ou ainda antes?) para envolver a imagem do jovem que corresponde à representação de Cristo.


Essa imagem abstracta, a que envolve Cristo, e é chamada "mandorla mística", vinda do italiano em que mandorla significa amêndoa; e esteve - como se vê nas próprias obras arquitectónicas, na origem do Arco Quebrado do Estilo Gótico. Na origem ela significou e substituiu a Pomba do Espírito Santo, que vemos normalmente como a única forma de representar a 3ª Pessoa da Trindade*.


Por seu lado, essa mandorla (vejam algumas informaçõess em dicionários de símbolos) é a resultante da intersecção de dois círculos, que numa tradução visual do Filioque, exprimiram a simultânea e dupla procedência do  Santo do Pai e do Filho.


Claro que esta constatação (que talvez seja ainda só nossa, e explicada assim, tão directamente, como o fazemos?) não faz parte da micro-história da arte.

Mas sim de uma Macro-História, ou a História Geral que interessa, cada vez mais, aprofundar e divulgar - ao mundo todo - que ainda hoje, sobretudo nas melhores Universidades, quer compreender o seu passado e as suas obras.


Os dois círculos foram depois entrelaçados das mais variadas maneiras como mostrámos no post anterior na belíssima interpretação de Eduardo Nery, em pleno século XX.


A imagem seguinte (uma intervenção nossa, sobre a base da Wiki, que se coloca primeiro) pretende mostrar aos leitores esta questão que consideramos interessantíssima: uma verdadeira ICONOTEOLOGIA, mas que a FLUL mantém silenciada (como os seus responsáveis têm entendido) ser mais benéfico...**

Paris-Saint-Merry702-wiki-FILIOQUE.JPGParis-Saint-Merry702-wiki-FILIOQUE-5.jpg

*Assunto que já abordámos nos nossos estudos (Monserrate uma nova História), com o apoio de vários materiais e informações vindas de André Grabar. 

 

**Benéfico, mas apenas para os próprios: só pode ser (?), na medida em que estão a prejudicar, pessoalmente alguns, e genericamente todos... O paÍs

 

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9.2.19

Penso num post escrito em 2014, bastante visitado e actualizado hoje (numa nota), que acabou de ir para o Facebook.

É sobre a geração de Lima de Freitas, António Quadros, e outros...*

Precedida ainda, por exemplo, também por Almada Negreiros: autores que tudo fizeram para compreender as obras dos seus antepassados.

Foram uma "geração angustiada" em torno do Simbolismo, como se lhes referiu Alain Besançon?

Estamos de acordo que sim, absolutamente!

Como estamos de acordo que há um imenso manancial de materiais que a Historiografia da Arte, em Portugal - constituída por estudiosos (muitos ou alguns que nos conhecem e as ideias que defendemos, e que eles próprios contribuíram para que as adquiríssemos...), poderiam, com o objectivo de elevar essa mesma historiografia, ajudar a investigar e a aprofundar.

No nosso caso, não foi uma fácil,e simples «pedrada no charco». Pois vem a ser, desde 2001, a reunião de muito material, de forma persistente, e paulatinamente.

E se agora há movimentos neste «charco», eles vêm de baixo: do fundo da água, pois à superficie, a ver-se, não se passa nada...

Mas, aos que poderiam (e deveriam) ajudar a enriquecer a Historiografia da Arte, a esses sim, com os materiais e as provas já existentes, bastava-lhes pegar na pedra e atirá-la.

Se quisessem, pois andam por aqui e lêem os nossos escritos. Pelo menos, pode-se dizer: curiosidade não lhes falta!

Porque há/houve uma ICONOTEOLOGIA, que plasmou nas obras (nas arquitectónicas sobretudo!) a visão do platonismo e o conhecimento que os medievais tinham, sobre Deus.

Assim como mais tarde, seguindo sempre o mesmo processo, e sobretudo depois dos autores da Universidade de Paris, e de S. Alberto Magno - com S. Tomás de Aquino -, Aristóteles, foi «baptizado e cristianizado».

Como G.K. Chesterton escreveu no principio do século XX...

Foi um imenso passado que também em Portugal, alguém que conheci bem - António Quadros, fundador do IADE, e alguns amigos seus - procuraram, quase angustiadamente.

{https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/a-geracao-angustiada-lima-de-freitas-a-65925}

 

E como se escreveu, para actualizar este post, mais algumas informações, outra vez inesperadas, logo apareceram:

O Infinito, por Eduardo Nery, actuaizando a iconografia medieval 

Mandorla-EduardoNery.jpg

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*Mircea Eliade, Gilbert Durand... Na pintura o portugês Eduardo Nery cujas obras se podem ver em Portalegre no Museu das Tapeçarias (ou em Lisboa) também lembram trabalhos de M. C. Escher e as suas osessões para representar o INFINITO

 

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26.1.19

Etimologicamente (falando), significa a Construção Principal.

Porque Arqui ou Arche é principal, e Tectura, tal como Tectónica é construção.

E aqui podemos perguntarmo-nos: "Porque é que havendo tantas construções, há umas que são principais? O que será que as torna, ou as tornou principais?" Qual a diferença?

 

Há uns anos, se fosse dentro das aulas, perguntaria aos alunos, porque é que determinados objectos os fascinavam mais do que outros, a ponto de dizerem (e se expressarem até com alguma emoção): Professora, veja a categoria! Isto é dezaaaiiinn. Vê-se mesmo..., ... à distância! Não 'tá a vêêêrr, professora?

 

Perguntávamos-lhes: Porquê?  Insistentemente, tentando que se expressassem e que verbalizassem, com a maior clareza que conseguissem - Porquê o atributo? Porque é/era Design (o que lhes aparecia como tendo mais qualidade)?

 

Insistíamos para que chegassem às palavras, racionalizando o que estavam a ser (apenas) emoções. Pois por muito que sentissem, e ainda bem que sentiam - pois já havia essa base comum para se poder trabalhar -, era essencial, portanto, pôr o tema/assunto ao nível da razão. Isto é do RACIONAL e do INTELECTUAL, encontrando o porquê de tanto fascínio?

 

E assim, aqui neste texto, passamos agora outra vez à palavra Arquitectura, que ficou acima em título:

Não sei se foi deste modo que se chamou escultor ao que sabia esculpir os materiais? Insuflando-lhes a capacidade de darem alma e sentimento a esse material, tornando-o capaz de ser muito mais do que uma simples imagem em volume?

 

Acredito que possa ter sido, assim como ao verdadeiro pintor,  chamado desse modo, por ser capaz de animar (dar alma) às formas que desenhava e pintava...? Como acredito que, do mesmo modo, se possa ter chamado architectore, ao que «arquitectava».

 

Embora esta designação - e ao vivo -, eu só tenha tido a imensa sorte de a ter encontrado, em Portalegre (no chamado PALÁCIO AMARELO), inscrita numa placa de pedra.

civitatesArchitectore.jpg

CIVITATES ARCHITECTORE

ANNO DOMINI 

1803

18806114_zM11H.jpg

Terão aqui chamado architectore ao civitates (cidadão, portanto não militar) Inácio Caldeira-  pergunto eu - por lhe reconhecerem uma habilidade maior, e a capacidade de fazer construção, digna de ser chamada Arquitectura?

 

Ou seja, por ter posto a falar  as formas e os elementos construtivos, como as simples superfícies de tectos, de paredes e de pavimentos; mas também com esses todos os outros elementos que são necessários, porque suportam essas mesmas construções?

Já que em geral, e em cada obra, o Architectore pôs o seu trabalho a falar pelos donos das casas. Que é como quem diz, a engrandecê-los a eles, aos donos, e ainda às casas?

 

Isto é, a falar pelos que tinham pago ao referido Architectore , o seu trabalho. Cujo objectivo e tarefa principal, seria a de lhes enobrecer a Casa (de família), o Solar, a Mansão. Ou se quiserem, numa outra palavra/expressão - o Espaço Palatino de que eram proprietários, e onde viviam*.

 

Mas, estamos ainda interessados em dar mais informações aos leitores: Neste caso, como uma peça tão pequena - que é geralmente designada Edícula (como um Nicho) - pode ser considerada, se quiserem, a base de toda a Arquitectura (note-se, no sentido falante que estamos a defender e justificar).

Image0047-b.jpg

Image0048-b.jpg

Em suma, neste sentido falante** que a minha profissão (e vivi assim, sem saber até aos 50 anos...!) - é uma Disciplina, ou uma Ciência muito especifica, e cujo carácter, que é eminentemente prático -, sempre existiu.

 

Mais, reparem no excerto acima que se foi buscar ao Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura***, onde o Nicho é valorizado, mas ficando a faltar-lhe talvez o essencial? Neste caso, concretamente falta dizer que um nicho é a palavra latina para concha. Acrescentando-se que se punha e pôs uma concha, na Arquitectura Paleocristã, para significar que alguém era baptizado. Portanto, que esse alguém era Cristão.

 

E se vivemos até às «nossas cinco décadas» com tantas ignorâncias, percebe-se assim, talvez, que ambicionemos que muito mais se diga e explique, para que todos nós, aos poucos, possamos ir entendendo melhor esta disciplina que é a Arquitectura. Já que no passado se baseou, na maioria dos casos na Teologia.

 

Mais:

Sempre que as ideias Teológicas evoluíssem - o que nunca deixou de acontecer -, então também a Arquitectura tinha que evoluir sob pena de ficar (ao nível dos mais antigos conteúdos teológicos, e seus significados) e portanto também ela, a Arquitectura, desactualizada.

 

Só que hoje, tentar explicar isto, torna-se dificílimo. Sobretudo pelo preconceito, fazendo com que logo, alguém - altamente (in)feliz - venha mencionar supostos secretismos, escondidos. E a obrigarem a que se fale de Maçonaria...? Só que, dizêmo-lo, e é a nossa opinião: Não, não é forçoso!

 

Para nós thanks God, e a George Hersey - pois foi num extracto do Dictionniare Critique  D'Iconographie  Occidentale,  e a propósito de Ornement, que pudemos perceber (com muito mais clareza) como a Arquitectura, na sua raiz, era falante.

Podendo agora, e a terminar, acrescentar que vários arquitectos de uma família de Colónia, ficaram para a História como os Parler. Sendo o mais conhecido Peter Parler (1330-1399), autor de várias obras da Europa Central, incluindo a Catedral de S. Vito em Praga. Com o link acima, podem ler...

 

Pois, indubitavelmente, na arquitectura Gótica (tardia) que fizeram, uma das suas principais características, sempre apontada, era a eloquência...

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*Tenho a certeza, o leitor não imagina como cada palavra escrita, e antes cuidadosamente escolhida; como para cada uma dessas palavras existe, mentalmente, uma imagem associada, ou mnemónica, que apetecia inserir neste texto. O que, claramente, não é possível. Mas agora e a título de exemplo, fica aqui o que tenho em mente, quando uso a palavra/adjectivo palatino (que vem de palatium).

 

Pala-Tium.jpg

E isto porque a palavra Palatino, antes de ser relativo a palácio significava Céu da boca. Ou seja, lembremo-nos que as palavras e os discursos que hoje usamos (e fazemos) - alguns muito baseados naquilo que os povos foram absorvendo do mundo: Já que no passado essas imagens (e as palavras que as designavam) foram referentes, ou, melhor dizendo, a base para a construção de outras realidades. Que surgiriam por associação e por analogias sucessivas; passando depois, eventualmente, a metáforas que se aplicavam a outras realidades.

 

Acontece que a Arquitectura - desde tempos antigos à actualidade - está repleta destes exemplos como Georges Hersey tão bem explicou: a transição de elementos arquitectónicos (que foram retirados da Arquitectura) para a Filologia - uma ciência da linguística.

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20.1.19

Ou seja, referimo-nos à fusão da Concha com a Pomba.

Ambos os elementos (naturais) tornados Sinais ou Símbolos do Baptismo, e do Espírito Santo, que o novo Cristão recebe ao ser baptizado.

No caso desta imagem - tal como a do post anterior proveniente de Ravenna, mas esta do Mausoléu de Galla Placídia.

Para nós é especialmente curioso que a composição inclua ainda os 3 círculos entrelaçados que vieram a ser empregues, vários séculos mais tarde, por Joaquim de Flora.

Na sua explicação (e como ele interpretou, no tempo, PAI, FILHO e ESPÍRITO SANTO...) sobre a Trindade*.

Concha-Pomba.jpg

Se na composição do post anterior a pomba transporta suspensa uma coroa (votiva, embora também possam ser as penas da cauda...?), neste caso a cabeça da pomba pende, e vê-se bem.

Além disso as asas abrem-se - paralelas ao arco (conformam-se, por dentro) - e depois, de uma maneira «tendencialmente abstracizante» as penas da cauda** parecem multiplicar-se. Sendo em simultâneo, como raios, não só as penas da Pomba, mas também como as nervuras que uma Concha normalmente (também) apresenta.

Imagem vinda de Ravenna Capital of Mosaic (ver p. 17). Salbaroli Publications, Ravenna, 1988.

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*Assunto de que já escrevemos, mas que estará sempre incompleto, tal é a sua dimensão.

**Estas Penas - que são chamadas Remígios, lembram-nos que Rémy - o Bispo de Reims que baptizou Clóvis - talvez não por acaso, o seu nome latino, Remígio, fosse desde logo uma forma de invocar o Espírito Santo?

Faz-se esta pergunta, por não deixar de ser curiosíssimo o facto do Bispo que baptizou o primeiro rei católico francês (com a lenda que está associada ao seu baptismo, a pomba que trouxe a ampola com os óleos, etc., etc., e ainda antes a sua conversão do arianismo para o catolicismo...); em toda esta estória é mesmo muito curioso que bispo se chamasse Remígio (?!)

Poderá ser só uma coincidência, mas esta é tão forte (ou tão enfática?), que dificilmente se esquece ou deixa passar em claro...

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18.1.19

Nunca tive um grande gosto por mosaicos, mas quando percebi que estas obras paleocristãs estão repletas de elementos iconográficos não apenas naturalistas (icónicos), mas também a incluírem sinais e imagens, crescentemente simbólicas (i. e., à medida que o tempo foi avançando, e o cristianismo se instalou como religião oficial). Então, ao compreender este fenómeno, que M. J. Maciel tão bem explica, depois disto os mosaicos passaram a ser para mim do maior interesse.
Neste caso, na legenda da imagem está: "motif with shells". Mas consideramos ser mais do que isso.Concretamente uma fantástica «fusão visual» entre a forma de uma Concha, e a da Pomba, ambos sinais/símbolos do baptismo, e na teologia cristã alusões ao Espírito Santo.
Claro que se vêem, bem, as 2 pombas de perfil no cimo do nicho que tem ao centro a cruz. Mas a Pomba que é menos fácil de ver,  é desenhada pelos traços brancos, que a desenham de asas abertas, e cuja forma assim se «somou» à imagem da concha. Tem no bico, suspensa uma coroa.
Se pensarmos que pelo baptismo cada um dos baptisados, para a Igreja, passa a ser Sacerdote, Profeta e Rei, então compreeende-se como esta iconografia está longe de ser abstracta,
Já que traduz uma série de ideias que se podem ler, relativas ao baptismo.
Por fim resta-nos acrescentar que estes «Nichos gráficos» - bidimensionais - em geral são anteriores aos nichos tridimensionais e a todas arcarias, ou edículas da arquitectura. As quais, em cada época (por isso os diferentes estilos) - e porque a Arquitectura é na sua essencia uma linguagem -, serviram para fazer a apologia das figuras que fossem representadas no interior dessas mesmas edículas.

Nichos-S. ApolinareNuovo.jpg

A imagem é da Basílica de S. Apolinare Nuovo, de Ravenna, extraída de Ravenna Capital of Mosaic (ver p. 108). Salbaroli Publications, Ravenna, 1988.

 

 

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Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
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