Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
4.12.22

Como é sabido, neste tempo em que vivemos as religiões estão fora de moda..

Portanto, azar o nosso, termos ido à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - estudar o Palácio de Monserrate - e por ele termos concluído (ainda durante os estudos) que a cultura cristã, claro que alicerçada, principalmente, na base grega e romana, esteve na génese daquelas que, ainda hoje, são consideradas as formas-base da arquitectura do Ocidente. 

Incluindo «a nível oficial», e também com fórmulas diferentes para as monarquias e para as repúblicas: 

Falemos nós da sede do Governo em Ottawa, ou por exemplo, dos edifícios dos Parlamentos húngaro (Budapeste); ou ainda, claro, o Parlamento do Reino Unido. No caso deste, em Londres - as Houses of Parliament  foram referidas, directa, e propositadamente, no trabalho que fizemos*. 

Mas também o edifício do U.S. Capitol, em Washington D.C, embora mais classizante, tem marcas e sinais típicos europeus: i. e., ocidentais, cristãos (que participaram de uma ou várias sínteses e simbioses que sempre se fizeram).

Porém, o assunto de hoje, é bastante anterior (no tempo) - apesar da abertura que se fez, e da maior extensão das notas abaixo. Porque é, ainda, e de novo, uma outra pergunta que está subjacente.  Vem na sequência das já colocadas, sobre a Concha.

Concretamente, porque no Mausoléu de Galla Placídia, em Ravenna - ver no tecto -, e desde que avançámos nas nossas investigações, nos apercebemos da existência de círculos; semelhantes aos que Joaquim de Flora usou (mais tarde) para explicar aquilo a que agora, e muito resumidamente, se poderia chamar "Tempo Trinitário" **.

 

Seguem-se 3 imagens, em aproximação crescente.

Note-se como demonstram a necessidade, absoluta, que todos temos, ao investigar, de que existam boas fotografias.

 

Não estivemos no local, mas mesmo que isso tivesse acontecido, claro que o tempo de estudo tem que ser lento, e de rememoração sucessiva: pois há que pensar nas questões implícitas.  Aliás, muitas destas imagens, como vários autores/autoras têm escrito tinham objectivos mnemónicos.

 

Claro que temos dúvidas, se a imagem representa - exclusivamente - uma Concha ? Como se indica na  última ampliação (com a seta). Isto é, por termos em consideração a forma que foi colocada no centro da composição, e sobre os círculos. O que representa, o que terá representado ?

 

Resta acrescentar que a imagem provêm de Alta Idade Média e Românico, Lisboa 2006, Edições Público (p. 47)

TectoGallaPlacídia-2-B.jpg

TectoGallaPlacídia-1-B.jpg

TectoGallaPlacídia-1-C.jpg

* O tal super-incomodativo, que levou os professores a expulsarem-nos da FLUL. E também, a toda a desorientação com que fomos «presenteados» na FBAUL, por um orientador muito pouco profissional...

Ver mais do que eles vêem (os profs. catedráticos), como se percebeu, não era uma pecha pequenina. Mas um gravíssimo pecado! Claro que ao prosseguir, como sempre fizemos - na prática desde 2002 - hoje sabemos das questões de conveniência e décor, de que já Vitrúvio escrevera. E que na arquitectura tradicional, nunca abandonaram a prática projectual/construtiva (o que talvez seja uma constante nas monarquias...? Não sabemos). 

Mais, este assunto até nos levaria (por exemplo) a Regina Anacleto e ao que escreveu (porque não os  entendeu) sobre os contributos, respectivamente, de Possidónio da Silva (arquitecto português) e de Wilhelm Eschewege (engenheiro de minas, alemão), para a obra imaginada por D. Maria II e D. Fernando II, para o Palácio da Pena.

Afinal, o caso que é em Portugal - salvo melhor opinião -, o exemplo maior de obra medievalizante/gótica que a realeza oitocentista chegou a construir.

** Círculos que são os mesmos que, esquematicamente, traduziram em desenho, a concepção do dogma católico designado como "Filioque ".

 

Enfim, este post é também uma sequência, e continuidade, de um comentário que há dias se deixou (ver abaixo), sobre o papel fundamental da  Bíblia na cultura ocidental...

... E da qual a arquitectura faz parte. 

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22.11.22

O Museu de Conímbriga - e faz muito bem - está numa campanha de auto-promoção, lembrando-nos a sua importância.

Não apenas a que tem a nível nacional, mas, já agora, e é da nossa responsabilidade o que se acrescenta, também a nível internacional.

Pois há-de ter repercussões, sendo da maior utilidade, como se insiste, o conhecimento da Iconografia mais antiga. Não descurando nós (pois sabemos disso) a existência de alguns sincretismos que existiram.

Mas aqui - e como sempre - interessa-nos sobretudo a génese, e depois as evoluções, principalmente da iconografia cristã.

A que veio a estar presente nos estilos arquitectónicos cristãos, a qual, em evolução permanente (desde os tempos mais antigos), não deixou de chegar aos tempos actuais*. 

A imagem seguinte pertence ao referido Museu, cuja designação actualizada e mais completa, pretende agora lembrar-nos que já existe há 60 anos.

Embora, como se pode perceber pela (nossa) composição, tendo trabalhado sobre ela: transformou-se o motivo num padrão, que, concretamente, até não sabemos se existe?

No entanto, sabemos de outros que são bastante semelhantes...

Museu-Conímbriga-JornalCoimbra-c.jpg

Mas isto (que não é tropelia, mas sim metodologia !) fez-se propositadamente, por 3 razões: 

1ª - Porque, verdadeiramente, e ao contrário do que é mais habitual, neste caso ainda não conseguimos compreender qual pode ter sido a associação feita entre os círculos? Que ideia - enquanto ideograma que se admite terá sido - quereria a imagem esquemática (acima) transmitir? 

2ª - Por nos lembrar o que escreveu André Grabar, sobre imagens que em sua opinião lembram "fórmulas estereoquímicas" **

3ª - Porque se quis aproximá-la da imagem que vem a seguir :

Átomos-Nanotecnologia-2.jpg

Imagem obtida aqui  e da qual a seguir ainda se diz ser proveniente do... 

"...Microscópio mais preciso do mundo / A nanotecnologia cravou mais um recorde digno do Guinness: o microscópio de resolução mais alta do mundo. / Com ele é possível visualizar com precisão estruturas medindo 0,39 ângstroms." ***

Acontece que ao reunirmos desenhos de pavimentos tardo-romanos, com padrões e imagens provenientes dos melhores microscópios do mundo, estamos a fazê-lo também, e mais uma vez, propositadamente:

Por sabermos que todas as imagens da Arte (antiga, tradicional e religiosa) foram criadas nos contextos científicos do seu próprio tempo. Contextos a que se dá agora, simplesmente, a designação de Pré-Ciência.

Átomos-Esteoquimicos.jpg

E acaba-se este post com uma junção que a Filosofia - como Amor à Sabedoria e ao Conhecimento - na actualidade permite concretizar :

Os átomos em vibração, sempre imparáveis (lado esquerdo) - que foram inventados por Leucippus e Democritus cerca de 2000 anos antes de poderem ser vistos de facto (com microscópios electrónicos). Postos a par, como está na imagem acima do lado direito, de concepções cosmológicas que estão, frequentemente patentes, na Arte da chamada Antiguidade Tardia.

E sobre o Atomismo - escreveu Jacqueline Russ, referindo-se ao contributo de Leucipo para o avanço da ciência antiga - "permitiu uma representação geométrica da realidade". Acrescentando:

"Belle avancée du materialisme antique, qui n' a pas fini de fasciner une longue postérité, désireuse d' expliquer les phénomènes naturels à partir d' autres phénomènes naturels"

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ 

Como pudemos verificar, ao estudar Monserrate, assim como muitos do projectos e das obras que se fizeram desde os séculos XVIII-XIX, onde a Iconografia Cristã, num mundo que é cada vez mais laico, ainda não se «dissipou» totalmente. Porque, arquitectos e outros autores, não cessaram, ainda, de fazer remissões para alguns dos sinais antigos, cujo sentido (e significados) se vão conhecendo até agora...

** E do que escreveu sobre essas «fórmulas» que empregaram círculos das mais variadas maneiras, está aqui um excerto:

_Grabar-Les voies... p.334-b.jpg

*** Note-se que um ângstrom é um nanómetro a dividir por 10. Ou, dito de outra maneira

"Em milímetros, uma unidade muito usada para expressar pequenas coisas como as bitolas de fios de cobre, por exemplo, um nanômetro é: 1 nm =1 x 10 -6 milímetrosOu o que é igual, 1 nm é um milionésimo de milímetro."

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19.10.22

Aqui ganhámos um prémio. Este:

MosaicoAntigo-Conímbriga-3.jpg

E assim é enorme a felicidade! Mas, contrabalançada pelo post - que nem sequer é muito bonito... - alusivo ao Congresso a decorrer em Lyon, e dedicado ao Mosaico Antigo

Da Association Internationale pour l'Étude de la Mosaique Antique, e que está a decorrer, precisamente nesta data. 

MosaicoAntigo-Conímbriga.jpg

O nosso interesse vai sempre (e continuará a ir) para a ICONOTEOLOGIA*. Razão para já se ter deixado um recado, dito com a máxima força, e a visibilidade maior que possamos conseguir, tentando alertar Historiadores e Arqueólogos:

"Era bom que chegasse a Lyon que muitas imagens dos mosaicos romanos - dependendo das datas - são já a passagem de imagens icónicas a anicónicas, ou abstracções, tradutoras de ideias do cristianismo. E em Conímbriga há bastantes exemplos...

E que depois de percebida esta ideia, é mais simples e mais fácil compreender os estilos (arquitectónicos) cristãos, e as escritas - que foram vocábulos visuais - que as obras integram. Sejam da Antiguidade Tardia, ou Românico, Gótico, Renascentista, Barroco e os Revivalismos. E não podem dizer que não foram avisados..."

Quanto ao tom - talvez aparentemente irónico e jocoso? - parece-nos ser mesmo o único que faz sentido usar. Para também não nos desgastarmos demais, numa questão que já leva 20 anos e foi/tem sido escondida, sucessivamente, por Vítor Serrão, Maria João Baptista Neto e Fernando António Baptista Pereira **.

Nós não deixámos de aprofundar as questões - apesar dos seus boicotes -, e mesmo que não publicados, são vários os textos (provas) que muitos nos vão «agradecendo», e levando - sabe-se lá para onde...? - em sucessivas partilhas.

Como o que está aseguir é um desses (e podem ler aqui em francês). Ou traduzido para português (neste outro post, nos sublinhados a amarelo).

§ 5. – [333 B] “Les verges indiquent le pouvoir royal, la souveraineté, la rectitude avec laquelle elles mènent toutes choses à leur achèvement (…) les équipements de géomètres et d’architectes, leur pouvoir de fonder, d’édifier et d’achever et, en général tout ce qui concerne l’élévation spirituelle et la conversion providentielle de leurs subordonnées. Il arrive aussi parfois  que les instruments avec lesquels on les représente symbolise [333 C] les jugements de Dieu à l’égard des hommes, les uns représentant les corrections disciplinaires ou les châtiments mérités, les autres le secours divin dans les circonstances difficiles, la fin de la discipline ou le retour à l’ancien bonheur, ou encore le don de nouveaux bienfaits, petits ou grands, sensibles ou intellectuelles. En somme une intelligence perspicace ne saurait être embarrassé pour faire correspondre les signes visibles aux réalités invisibles.”      

Excerto que é proveniente de Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys L’Aréopagite. Trad. Maurice de Gandillac, Éditions Montaigne, Paris 1943, p. 240.

Por fim lembra-se o pavimento de mosaico romano da Casa do Infante,  que mais directamente, nos remete - com menos sobressaltos - para os dois estilos cristãos: Românico e Gótico

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* Que pode um dia vir a ser uma área especifica da Iconografia

** Professores lisboetas, que se estão bem «marimbando» para o que possa estar em Conímbriga, ou em qualquer outro local do mundo...

Idem, pelos 20 anos já passados e pelos nossos apelos, vê-se como pouco ou nada lhes interessa o prestígio da Arquelogia ou Historiografia portuguesa

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30.8.22

Para começar, lembra-se que estamos de volta destes temas, Escrita na Arquitectura, desde praticamente 2002! Sendo que, se a primeira nota (*) deste post de hoje faz referência a um texto que só recentemente se encontrou, há no entanto muitos outros materiais - sejam eles textos ou informações soltas -, que são conhecimentos nossos, que os temos há imenso tempo, e portanto bem mais antigos.

Podem não estar no nosso livro** - onde naturalmente não cabia tudo -, mas já estavam na nossa mente (e desde 1968, de certeza...).

Embora apenas raramente explicitados, como é o caso de imagens que estão neste livro - Archigraphia, Architectural and Environmental Graphics,  Edited by Walter Herdeg, The Graphis Press 1978, Zurich - que o adquirimos em 1978, data a partir da qual passámos a conhecer (melhor) - o que para um arquitecto é (quase forçosamente), óbvio.

Imagens onde é muito fácil perceber como a sinalização visual - que nos exemplos seguintes completa a arquitectura - são caligrafias «extrudidas».

archigraphia-p.85(3).jpg

archigraphia-p.84(2).jpg

(vindo de Archigraphia, Architectural and Environmental Graphics,  Edited by Walter Herdeg, The Graphis Press 1978, Zurich, pp. 85 e 84)

Aliás, as imagens do livro não são muito diferentes (a diferença está só na materialização) do que já se fez e publicou neste outro post de Set. 2021. A relembrar:

Enfim, o IDIOTA ÚTIL - porque a nós nos foi útil - está prestes a atingir o limite de idade. E pode ser, tenhamos muita  esperança, que no IHA da Fac. de Letras da Universidade de Lisboa (who knows ?) seja sucedido por alguém menos limitado e menos atávico; mas sobretudo alguém mais honesto? 

Alguém que tenha uma mente aberta, seja inter-multi-disciplinar, e esteja mentalmente mais  preparado para entender uma Nova História da Arquitectura.

À luz da qual, quem sabe?, até os Painéis de S. Vicente, possam vir a ganhar interpretações mais sensatas e verosímeis? 

Razão para terminar este post com uma nova citação de Béatrice Fraenkel da EHESS, onde chama a atenção para caminhos novos que a História de Arquitectura (e da Arte) terá que percorrer:

 

"Au terme de ce parcours qui, rappelons-le, ne prétend ni à l’exhaustivité d’un compte rendu de publications ni à l’objectivité d’une synthèse bibliographique, les divers travaux ici mentionnés invitent à porter un regard plus attentif sur les écritures, qu’elles soient exposées ou architecturales. Ainsi mis en relation et au-delà de leurs spécificités, ces travaux dessinent les contours d’un domaine de recherche sinon nouveau au moins renouvelé.

(…) Symétriquement, l’anthropologie de l’écriture déplace la question traditionnelle de l’ornement en architecture en soulignant la dimension écologique des « embellissements » comme les nommait Alberti. Fabriquer une ville lettrée, qu’elle soit de néons ou de pierres gravées, c’est donner une consistance à un espace public, rendre visible un champ de forces contraires, instables, ouvertes à de multiples usages citadins."

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*Note-se que o nosso título vem inteirinho daqui,  mas inclui também materiais de um outro post escrito há dias sobre algumas frases de Léon Battista Alberti

** Monserrate uma Nova História, por Glória Azevedo Coutinho, Livros Horizonte, Lisboa 2008.

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16.8.22

Não perder o rumo...

Concretamente, não esquecemos um post de Novembro de 2013, e aquilo que em determinado período tanto nos entusiasmou.

Entusiasmo que não foi só nosso, mas induzido também pelo orientador, como podem ler na nota e no link abaixo*. 

ResumoFABP.jpg

E sobre isto que convém não esquecer, na verdade, é em ARQUIVO. PT e na página seleccionada, que vamos encontrar ajuda. Pois foi o responsável pelos nossos estudos Fernando António Baptista Pereira que o explicou, na Faculdade de Belas Artes, numa frase sua - e que bem sintetizado! - aquilo que viu nesses mesmos estudos:  

Origens, Significado e Evolução dos Estilos Artísticos – Evolução dos Conceitos nos seus Contextos Culturais desde a Antiguidade até ao Mundo Moderno

Mais tarde - e/ou porque algum bicho lhe mordeu...? - deixou de nos orientar e passou a «desorientar». 

Só que, quanto a bússolas, ou sobre saber onde nasce e onde o sol se põe, em cada dia, seja verão ou inverno, ainda não estamos perdidos...

Como não está perdido este nosso desenho, decalcando L. B. Alberti (ou quem sabe Giorgio Vasari?), de uma formulação visual/arquitectónica** que é, absolutamente fascinante:

Sol-Invictus-SantaMariaNovella.jpg

*Os nossos estudos de mestrado e depois de doutoramento, em que nos começámos a aperceber como a História da Arte e da Arquitectura tinham sido substancialmente diferentes daquilo que em geral se conhece. 

** Imagem existente na fachada de Santa Maria Novella em Florença

 

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10.8.22

Já se tinha escrito sobre a imagem seguinte, mas, entretanto alguns artigos que lemos avivaram-na ainda mais:

Assim começamos pela palavra liminar, que segundo o dicionário (aqui ao lado *) é um "limiar". Dizendo-se a seguir que é subliminar aquilo que é inferior ao limiar, pois não ultrapassa o "limiar da consciência".

Lembramo-nos de António Damásio, mas..., vamos em frente, continuando com o que consta no dicionário a propósito de subliminar:

"... diz-se dos estímulos de fraca intensidade que quando repetidos, actuam no indivíduo ao nível do subconsciente, podendo interferir na sua conduta sem que ele se aperceba;"

É outra perspectiva.

Mas é também quando nos acorre a lembrança de C. G. Yung, e a sua ideia de Inconsciente Colectivo.  E com esta vem a noção de camadas, que se aplica, às leituras da imagem que está a seguir. Incluindo nela, na 2ª versão (com os círculos que inserimos) o que não está lá, mas que, mentalmente se sub-entende!

MandorlaNoCentroTecto-completa.jpg

Imagem que tem servido a Vítor Serrão para (longos) discursos sobre o visível, presente nas composições que narra, com enorme entusiasmo. Sem que, nessas suas deambulações descritivas, chegue alguma vez a exprimir a essência da composição. Pois na verdade deveria perguntar-se, o que move?, porque rodopiam em tanto dinamismo, ou o que desenham, os elementos que se vêem, e integram a imagem...?

No entanto, e porque se vão encontrando, neste mesmo tema (dos "brutescos"  **) - composições quiçá herméticas...?, e tão repletas de elementos icónicos e anicónicos - elas terão servido, é quase óbvio, para pôr a falar,  directamente, o invisível.

Isto é, querem afirmar exactamente o que não consta - nem está explicitado pelo desenho, já que não foi completamente desenhado/riscado ou inscrito na própria composição - mas que se sente!

Só que, muitos desses elementos, não apenas os que foram representados naturalisticamente, mas também os anicónicos, ou abstractos (ditos simbólicos...); em geral tudo isso integra a enorme colecção de imagens que, sem a consciência deste fenómeno, contribuiu para a formação do Inconsciente Colectivo...

E estão na Arte!

Sendo neste ponto, que uma série de artigos que decidimos ler*** - e dão origem a este post, como consta logo de entrada - se nos apresentam muitíssimo «desarticulados». Numa desarticulação que faz com que, poucos se consigam entender.

Claro que é a nossa opinião, relativamente à Arte Cristã e ao maior interesse que pode (ou deveria) existir, no seu estudo. Estudo a fazer desde as origens, cientificamente, e desde quando o Cristianismo surgiu, com as imagens a serem postas a falar, ao serviço da religião. O que aconteceu, até que - vindo sobretudo de Adolf Loos (que mostra não ter percebido o que «viu» como excessos de decorativismo) - a Arte Cristã passou a ser posta ao mesmo nível do que era cada vez mais, e simplesmente a Arte.

Arte que vinha a ser desligada, e crescentemente descomprometida, do sentido de serviço ao religioso, em que tinha nascido (e para o qual fora criada...)

Quando Maria João B. Neto reporta, a partir de Manuel Mendes Atanásio, sobre as origens do questionamento da Arte Religiosa, tendo em vista, no meio do século XX, a criação de um movimento que introduzisse inovação na Arte e na Arquitectura; então cita Frei Marie-Alain Couturier, O. P. (1897-1954) - que foi Editor Chefe da Revista L' Art Sacré, o qual, segundo escreveu:

"...não hesitava em afirmar que as causas principais da decadência da arte sacra não eram de origem artística, mas sim de ordem religiosa." 

E é com esta noção presente - como se vem a passar connosco desde 2004-06 - que vamos encontrando, nos muitos e diversos textos que lemos - toda uma imensa desarticulação, que, cada vez mais, precisaria ser esclarecida.

Que se começasse a usar, por exemplo, a nomenclatura de Robert Adam em The Globalisation of Modern Architecture , onde são referidos os "Faith-Based Styles".  Mas também que leiam Mark Gelernter (n. 1951) arquitecto e professor em Denver, e o seu fantástico livro de 1995: onde já ficaram claríssimas, muitas das ideias que hão-de um dia estar numa qualquer nova história da arte e da arquitectura. 

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* Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora, Lisboa 1995.

** Ver imagens do tecto da igreja de Santo António no Estoril, pintado por Carlos Bonvalot 

*** Reunidos sob o título Arte e Igreja em Portugal, Histórias e Protagonistas de Diálogos Recentes, Edição Caleidoscópio. Lisboa Novembro 2021. Por exemplo, de entre as «Histórias e Protagonistas de Diálogos Recentes», concretamente no artigo que tem como subtítulo - Interpelação e interpretação moderna de símbolos cristãos  (ver na p. 99), a referência ao valor e importância do espiritual, não chega. Não é de modo nenhum suficiente, para ajudar a destrinçar, e assim a compreender - se de facto se pretende fazê-lo?! -, o que é a arte cristã e a arte laica. É que o problema - pois pode de facto existir aqui um problema, de entendimento e classificação, que se pretende seja racional, para além do emocional. É que, se a Arte é Arte?, se lhe reconhecemos qualidades (quase) fora do racional, e do comum, nas obras? Se achamos que houve habilidade técnica, e também ao nível das ideias, para reunir e concretizar algo de muito belo? Se isso aconteceu, é porque uma centelha de algo, que já de si é divino, conseguiu passar às obras.

A Arte eleva, tal como no passado se pretendeu (ver em Exégèse Medievale, Les Quatre Sens de L'Écriture, por Henri De Lubac), que a arte e a arquitectura fossem anagógicas. 

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21.5.22

O Desenho a seguir foi obtido por sucessivas transformações de uma fotografia (que não é nossa[1]), para a partir desses elementos se poder compreender melhor o padrão do que foram (e são ainda) aparentemente, círculos entrelaçados.

Desenhados como nervuras no tecto, para fazerem o suporte da cobertura, da que foi pensada como “Grande Arca[2] que é a igreja do Mosteiro de Belém.

tecto-jerónimos.jpg

As cores escolhidas relacionam-se com as que também se colocaram em plantas deste tecto (a apresentar em breve), desenhadas por Albrecht Haupt [3]).

Claro que falar de círculos entrelaçados quando se vêem, tão bem, outras formas como quadrados e octógonos, pode parecer contradição...

Mas, essa contradição não nos preocupa, por sabermos o valor da necessidade das concordâncias formais e geométricas; as quais, por sua vez, têm sempre na sua origem a necessidade de acerto, ou concordância, com a palavra escrita. E com ideias antigas, ou de sempre (?), que há muito tinham sido expressas:

Eram analogias e alegorias - ou a contrução considerada como um tropo. Ideias vindas de S. Paulo, e que se podem encontrar na Epístola aos Coríntios (III, 10-17). Razão para nos lembrarmos de textos já lidos - e nalguns casos até já comentados -, citados, etc.

Como é o caso de algumas características típicas da Geometria e da qual Mary Carruthers escreveu, citando uma ideia de Hugues de Saint-Victor:  

«source des perceptions et origine des dires »[4]

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[1] Imagem que nos serviu de base, e foi trabalhada como está a seguir. Vinda de http://patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70631

tecto-jerónimos3.jpg

tecto-jerónimos2.jpg

[2] Grande Arca - tumular” – como é, absolutamente preciso, sublinhar. Já que, em vários túmulos medievais se encontram os círculos entrelaçados  

[3] Ver em A Arquitectura do Renascimento em Portugal, por Albrecht Haupt, Editorial Presença, 1ª Edição Lisboa 1986. Sobre as ilustrações que usámos, e oportunamente serão aqui apresentadas (trabalhadas a partir da fig.68 ) ver o que escreveu sobre elas (p. III e p. V) M. C. Mendes Atanásio, na Introdução Crítica ao estudo de A. Haupt, em 1986.

[4] Ver em Machina Memorialis, Gallimard, Paris 2002, p. 38. Ou ainda em Para ideias e pensamentos bem mais elevados, e próprios da Época Natalícia, voltemos à Geringonça, Caranguejola, Traquitana: ou, neste caso, é mais «Maquineta»... - Primaluce: Nova História da Arquitectura (sapo.pt)

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10.5.22

Mesmo que, mais indirectamente, do que de maneira directa, continuo a pensar neste tema, e a andar à roda dele.

PORQUE, muitas igrejas - sobretudo depois de Hugo de São Victor e dos seus Tratados da Arca de Noé - foram vistas como Arcas.

Mas, acontece que o nosso tempo é sempre muito limitado, por isso aqui (com pouco texto e mais imagens) fica um tecto - lindo - que há dias apanhámos num post de Vítor Serrão.  O «nosso» Mestre da desconfiança e da incredulidade...*

Alguém que mexendo muito, por isso passa por materiais fantásticos, como é mais esta prova da existência de motivos e de padrões significantes; e como tal muito convenientes para algumas superfícies e paramentos - os de maior valor (sagrado) - dentro das igrejas.

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Já agora vai acompanhado de outros motivos: concretamente, de um outro, que tem a mesma geometria, visto há dias na Internet, num filme sobre a Catedral de Santa Cecília de Albi **    

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E por fim, vindo de Alcobaça - mas não directamente -, de duas arcas tumulares a que nos referimos no nosso trabalho sobre Monserrate (ver na p. 264), este outro padrão que temos vindo a trabalhar - por estar ligado à "Grande Arca de Belém"

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Concluindo:

É fortemente provavel que D. Manuel I tivesse visto com alguma atenção essas arcas de Alcobaça, e soubesse do seu valor significante e decorativo.

Do seu sentido antigo, que era o da conveniência, e não apenas no sentido actual da palavra decorativo, que parece ser apenas o de "encher os olhos". SIM, a noção antiga da palavra décor, era mais a de encher a cabeça de valores e de ideias. E era menos a de agradar aos olhos...

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*Incredulidade relativa à capacidade falante de muitas das fórmulas visuais empregues na Arte, e concretamente na Arquitectura. Alguém que não leu o «Tratado de Vitrúvio», e o que sobre ele escreveu Justino Maciel, ao explicar o sentido da palavra Décor

**Que também está no Porto, na igreja de S. Nicolau (se quiserem a procurar nos nossos posts)

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2.5.22

MALHA-D-CAIXA.jpg

AMOR, ARTE, INSURREIÇÃO. A criação artística apela sempre à insurreição que, por definição, existe no seu interior (ou não seria arte). Trata-se desse "puro mistério que nós balbuciamos, que a música canta, que os pintores evocam... e que remete sempre para o indisível -- e isso é o que faz a respiração de toda a arte"... Sim ! Belíssima, esta entrevista com Frei Bento Domingues no Público de hoje.”

Começamos com o texto acima, lindo (e muito empolgado) de um post de Vítor Serrão, que se pode ler na sua página de hoje  

E lindo mesmo, sem dúvida, mas seria ainda mais bonito (e coerente) se não viesse de alguém que, pura e simplesmente «expulsa» uma aluna – a quem publicamente tinha/tinham acabado de fazer elogios (e depois um dia mais tarde, até plagiado trabalhos...). E isto pela razão simples, de a aluna ter tido, e ter formado ideias próprias, sobre a arte antiga, religiosa e tradicional.

Em vez de, como «deveria» - se tivesse seguido as lógicas de um louvaminheiro profissional - e se se tivesse mantido submissa, ao que há muito estava (e ainda está) instituído.

Ou em vez de, e como é regra (regra que o louvaminheiro adora), ter repetido até à náusea, a «ciência da história da arte»; tal como foi inventada há cerca de dois séculos, quando ainda as neurociências e a linguística não existiam...   

Só que, prometemos a esse profissional de LOUVAMINHAS [1] que ainda hoje um texto de G. K. Chesterton, dedicado exactamente ao assunto que o levou a expulsar-nos da FLUL, iria ficar nos nossos posts. E por isso aqui está. Para não dizer que desconhece e nunca ouviu falar...

Mas, simultaneamente, também serve outro objectivo. Já que o mesmo texto (a seguir)  se prende, como defendemos, com os diagramas - vistos como abstractos -, no tecto da Arca de Belém, de que estamos a escrever:

“First, it must be remembered that the Greek influence continued to flow from the Greek Empire; or at least from the centre of the Roman Empire which was in the Greek city of Byzantium, and no longer in Rome. That influence was Byzantine in every good and bad sense; like Byzantine art, it was severe and mathematical and a little terrible; like Byzantine etiquette, it was Oriental and faintly decadent. We owe to the learning of Mr. Christopher Dawson much enlightenment upon the way in which Byzantium slowly stiffened into a sort of Asiatic theocracy, more like that which served the Sacred Emperor in China. But even the unlearned can see the difference, in the way in which Eastern Christianity flattened everything, as it flattened the faces of the images into icons. It became a thing of patterns rather than pictures; and it made definite and destructive war upon statues. Thus we see, strangely enough, that the East was the land of the Cross and the West was the land of the Crucifix. The Greeks were being dehumanised by a radiant symbol, while the Goths were being humanised by an instrument of torture. Only the West made realistic pictures of the greatest of all the tales out of the East. Hence the Greek element in Christian theology tended more and more to be a sort of dried up Platonism; a thing of diagrams and abstractions; to the last indeed noble abstractions, but not sufficiently touched by that great thing that is by definition almost the opposite of abstraction: Incarnation. Their Logos was the Word; but not the Word made Flesh. In a thousand very subtle ways, often escaping doctrinal definition, this spirit spread over the world of Christendom from the place where the Sacred Emperor sat under his golden mosaics; and the flat pavement of the Roman Empire was at last a sort of smooth pathway for Mahomet. For Islam was the ultimate fulfilment of the Iconoclasts. Long before that, however, there was this tendency to make the Cross merely decorative like the Crescent; to make it a pattern like the Greek key or the Wheel of Buddha. But there is something passive about such a world of patterns, and the Greek Key does not open any door, while the Wheel of Buddha always moves round and never moves on.”

É um excerto que já citámos noutras ocasiões, geralmente sublinhando as mesmas palavras e que podem encontrar em português. Em:  

"...Uma coisa de Diagramas e Abstracções..." - ICONOTEOLOGIA; ICONOTHEOLOGY (sapo.pt) 

Ou ainda:

As mulheres e os lugares na sociedade que os homens, hoje (em 2021), ainda acham que são só, e exclusivamente, seus (deles), é claro - Primaluce: Nova História da Arquitectura (sapo.pt)

E insistimos, ao incluir agora a imagem acima, porque, numa interpretação que é nossa - tal como está nas arcas tumulares alcobacenses - reconhecemos que em ambos os casos se trata de um padrão que terá servido para representar, ou aludir, ao Universo.

Quanto à entrevista no Público, vale mesmo ser lida, já que mostra toda a abertura de Frei Bento Domingues:

Como não parou no tempo, incluindo a sua reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade e na igreja; ou ainda - é  original - a ideia que tem sobre as pechas nos comportamentos quotidianos, e fraudesinhas que vão dando jeito aos que as praticam ... (dizemos nós).

"Pecar é estragar. Estragar a vida intelectual, a vida afectiva; estragar a vida uns aos outros. Isso é que é pecar. Pecar, no meu vocabulário é estragar"

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

* Prezava-se tanto, que tudo - no Antigo e no Novo Testamento - tinha que ser coerente. O que é dito, frequentemente, da seguinte forma:  "Novo Testamento está latente no Antigo e o Antigo está patente no Novo"

[1] Como podem ver na imagem seguinte

FreiTomás-FreiBento.jpg

link do postPor primaluce, às 22:00  comentar

1.5.22

Já escrevemos sobre esta Grande Arca de Paris

e é dela que nasce agora a ideia de chamar à Igreja do Mosteiro dos Jerónimos -----> "A Grande Arca de Belém".

 

Há/houve uma lógica nestas designações, que primeiro é francesa (e foi buscar o tema da Arca de Noé, que as igrejas antigas evocavam).

Tratava-se de uma alegoria, já anterior ao século XII, e baseada nos primeiros textos da Bíblia, mas Hugues de Saint-Victor resolveu sistematizá-la e organizá-la.

Percebemos e captámos esta imensa questão, e por isso se faz a proposta de leitura (ou a releitura) destes posts escritos há algum tempo.

link do postPor primaluce, às 00:00  comentar


 
Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
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