Muitas imagens da arquitectura foram «iconoteologia». Many images of ancient and traditional architecture were «iconotheological». This blog is to explain its origin.
12.2.21

Assim, com este título - porque é o que se passa - desta forma damos continuidade ao post anterior

Mas damos também continuidade ao que encontrámos no Facebook, em Lisboa Mítica, num post da autoria de Paulo Nogueira.

Aí deixámos logo um comentário, e depois ficámos a pensar ainda mais nesta questão.

Aliás, isso passa-se na Arte e também se passa na Ciência: há assuntos que não somos nós que trabalhamos neles; que os estudamos e que os investigamos. Ao contrário, um dia descobre-se que são eles que trabalham em nós...

Nos nossos posts no facebook, aqui em Iconoteologia e também em Primaluce, a questão do Filioque, já por diversas vezes (que são imensas) a abordámos. 

Tal como, pela primeira vez, quando a encontrámos ao estudar Monserrate. Está no nosso livro onde a podem encontrar em várias páginas. Por exemplo pesquisando por aqui (pois são sete as páginas onde o termo foi usado). 

Ou se preferirem, comprando o livro.

Mais: nunca lá teríamos chegado - a toda esta questão teológica, que se torna fantástica e muitíssimo entusiasmante (sobretudo quando a vemos estampada e construída nas mais variadas obras), - se não fosse o briefing da nossa orientadora para os estudos de Mestrado*: "Você só pode perceber Monserrate. se perceber as Origens do Gótico."

E agora para resumir, voltando ao post de Paulo Nogueira, nele encontrámos  um desenho do 15º rei de Portugal,  que foi D. João III.

É a figura seguinte:

D.JoãoIII-D.bmp

E depois neste desenho um detalhe que já conhecíamos - a imagem de dois círculos entrelaçados - como se fosse feita a partir de ramos e elementos vegetais, a qual não poderia (nunca) escapar-nos. Ou sermos insensíveis à sua presença  :

D.jpg

É a memória a «colaborar», por existir, muito semelhante, no retrato seguinte do Infante D. Henrique. 

Imagem que - quer pela divisa do Infante, "talent de bien faire", quer pela presença dos entrelaçados - também já nos tinha fascinado e um dia obrigado a escrever sobre ela

O tempo o dirá! Alguém há-de estudar e confirmar tudo isto, que é, já agora, demasiado lógico e demasiado importante, para os profs/doutores da Universidade de Lisboa continuarem «a fazer vista grossa»**.

Para nós tratam-se de insígnias, da nobreza e da realeza, que, quando foi necessário - e com a mesma lógica com que acontece noutros estilos, e noutras culturas - as imagens da caligrafia, ou de esquemas gráficos, ganharam tridimensionalidade e passaram a ser elementos construtivos e detalhes arquitectónicos.  

talent de bien faire-300ppp.png

* Os tais estudos em que uns grandes doutores do IHA da FLUL se acharam no direito de tratar a aluna como aquela criança a quem se diz -"olha, vai ali ver se chove?" 

** Embora, por outro lado, também não seja uma enorme surpresa esta incapacidade de ver, de quem não foi treinado para isso... 

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23.1.21

Quem nunca teve um daqueles impulsos que nos leva a comprar mais um livro? Pior: um daqueles livros de que talvez tenhamos ouvido falar, mas que nada garante se venha a tornar num fiel amigo de muitas horas de leitura...

Em resumo, quem não levou para casa mais um volume que não tem espaço na prateleira? E do qual quem sabe, vamos apenas extrair um dia uma frase curtíssima para citar? Frase importante, sem qualquer dúvida, mas que poderíamos simplesmente recolher numa biblioteca, se lá tivéssemos ido, se lá o tivéssemos visto (ao livro), se lá, algures, fosse motivo de curiosidade e se lá o tivéssemos aberto.

É mesmo assim, são muitos ses, muitos os acasos! A fazer-nos lembrar Jacques Attali e o que escreveu sobre labirintos: concretamente Chemins de Sagesse, traité du labyrinthe. E aqui, "tout court", os labirintos que são, ou foram, como voltinhas inesperadas da nossa vida, que, sem se saber como, nos levaram a qualquer coisa de importante, que pode ter mudado (ou vir a mudar) as nossas vidas.

jacquesAttali-labirintos.jpg

Aconteceu com o livro abaixo, trazido da Bertrand, depois da troca, de um outro que já tínhamos lido, e que alguém nos dera. Foi antes do Natal, ficou em cima de uma cadeira, à espera de ter um sítio ou um destino...? Até que um dia, há que arrumar: "O que está aqui a fazer este livro, que nem sequer abri? 

capa-LatimDoZero-a.jpg

Claro que não vou aprender latim... Mas as semelhanças com o português são tantas; e o latim estando na raiz do pensamento, como sabemos, claramente, que na relação que sempre houve entre palavras e imagens, muitas dessas imagens, referentes a palavras passaram para a arte..."

Foi então que com calma, pronto, lá o abri. O Latim do Zero.

Mero acaso, ou talvez não, bem no meio do livro, na lição nº 33. E com a dita calma. aquela que nem sempre temos para não ler em diagonal - mas sim a tentar absorver o que estava a ser percorrido pelos olhos. Foi então que quase no fim da página apareceu aquilo em que tanto temos pensado. Horas de reflexão, nunca de seguida, mas desde 2001:

A expressão do invisível.

O que se proclama no Credo cristão, quando sobre "as coisas visíveis e invisíveis", dizemos aquilo em que acreditamos. E aqui chegados, claro que pensamos no chamado Símbolo dos Apóstolos, e depois na sua nova formulação (cerca de três séculos depois) que ficou designada como Símbolo de Niceia-Constantinopla. capa-LatimDoZero-liçaonº33-b.jpg

Ou seja, no nosso caso pensamos - e mentalmente, é mesmo de relance - na passagem que se fez da cultura judaica para o Império Romano, quando à sua frente estava (a imperar) o imperador Constantino. O que ficou conhecido como Constantino Magno, filho, de Constâncio Cloro.

Pensamos, com mais ou menos tempo, nas questões (imensas) surgidas à volta da divindade de Cristo, e o que sobre esse tema se escreveu, e se discutiu. E por isso se fizeram imagens, a que hoje chamamos ideogramas. Imagens simples ou compostas que como verdadeiros datafow diagrams ajudavam a pensar...

Pensamos nas diferentes concepções trinitárias - e naturalmente nos respectivos ideogramas -, que, como sabemos, em grande parte, tiveram os seus fundamentos no Evangelho de João**. Ideogramas que hoje estão, muitos deles, plasmados/estampados (ou "built in") em muitas edificações. Principalmente em igrejas.

E a lição de Latim nº 33 - foi para lá que nos levou, e como fazem as paredes estreitinhas de um labirinto, que não nos deixe recuar - mostrou ainda melhor a ideia (conceptual, filosófica) que está subjacente ao Espirito Santo...

capa-LatimDoZero-liçaonº33-e.jpg

E assim, mais um passo e lá vamos nós, para o único volume (que por acaso temos) da tradução da Bíblia por Frederico Lourenço. Transitámos da passagem acima para o excerto referido (João 3:8). E aí lê-se:

"O sopro, onde quer, sopra. E ouves a sua voz. Mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espírito"***.

Depois desta frase, no mínimo, pensamos em rosas-dos-ventos, no octógono, numa torre de Atenas de que já escrevemos; e forçosamente em André Grabar.

Um dos primeiros autores onde lemos sobre as diferente representações do Espírito Santo, como já citámos em Monserrate uma Nova História (ver p. 40) e aqui se segue. I. e., exactamente como encontrámos em André Grabar, em Les Voies de La Création em Iconographie Chrétienne (ed. Flammarion, Paris 1979, pp.111-2):

“...Le cas de la troisième personne de La Trinité est intéressant. A la période qui nous concerne, il y avait je pense, un seul symbole du Saint-Esprit, la colombe. Elle apparaît comme nous l’avons vu, au Ve siècle, au moins dans une scène du baptême du Christ (sur une mosaïque du baptistère des Ortodoxes à Ravenne), et dès le début du Ve siècle,  sur le trône de Dieu (mosaïque de Santa Prisca, à Capua Vetere). A part quelques rares répresentations de la Trinité, les imagiers de la fin de l’Antiquité ne paraissent pas s’être posé le problème d’une image du Saint-Esprit qui tiendrait compte de tout ce qui, selon les théologiens, définit sa nature, et en particulier ses relations avec le Père et le Fils. Cette partie du Credo du premier Concile Œcuménique n’a pas trouvé d’écho dans l’art contemporain, et cela devait être souligné, car cette lacune est significative de la distance qui séparait la grande théologie de l’époque de l’iconographie contemporaine. Mais ce qui advint de l’unique schéma iconographique alors utilisé (la colombe) est aussi curieux : Cette allégorie provient bien sûr du texte évangélique qui décrit le baptême du Christ ; il faut cependant reconnaître qu’elle est archaïque, surtout si on la compare aux autres images théologiques, et qu’elle est plus proche des tout premiers symboles chrétiens, comme l’ancre et l’agneau. Ces allégories anciennes se trouvèrent en général remplacées par des figures humaines à partir du quatrième siècle ; mais la colombe du Saint-Esprit resta, et sert encore aujourd’hui à désigner la troisième personne de la Trinité. Les imagiers ont du tacitement reconnaître que le sujet allait au-delà des moyens dont ils disposaient. Néanmoins, même en conservant la colombe symbolique, les artistes auraient pu montrer la procéssion du Saint-Esprit, a fin de traduire le Credo. Ce fut fait d’innombrables fois au Moyen Age. Dans combien de cas voit-on la colombe quittant la main de Dieu Père ou placée de façon à exprimer le filioque c’est-à-dire que le Saint-Esprit procède tout à la fois du Père et du Fils! L’Antiquité semble-t-il, n’a jamais effleuré le sujet…"

No fim resta acrescentar que apesar de A. Grabar o ter dito expressamente desta maneira - "...les artistes auraient pu montrer la procéssion du Saint-Esprit, a fin de traduire le Credo"  - na verdade foi ele, André Grabar, que não viu muitas outras representações, diferentes, do Espírito Santo: imagens que não eram, e não são, a Pomba 

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*Este titulo - "O Espírito inspira onde quer" - é adaptação nossa, feita com a máxima liberdade, a partir de uma frase de Frederico Lourenço: "O espírito, onde quer, espirita". Está nas notas ao Evangelho Segundo João, na p. 333, do vol. I,  Bíblia, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos. 2ª ediçáo, Quetzal, Lisboa 2018.  

** E ainda de relance, podem passar, mentalmente, diferentes escritos feitos a propósito, por exemplo, dos Painéis de Nuno Gonçalves, ou até do quadro da NG, conhecido como The Ambassadors de Hans Holbein

*** Ver op. cit., p. 332

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E sobre o latim hoje (14.02.2021) acrescenta-se este filme

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14.1.21

O Autor que escreveu sobre Ler Imagens, e neste caso referimo-nos a Alberto Manguel*

Este autor de quem citámos há dias, em LER...tudo e mais alguma coisa - Primaluce: Nova História da Arquitectura (sapo.pt) ele insiste (e não se pode estar mais de acordo) naquilo que escreveu: 

 "...todos eles partilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir sinais."

Porém, há que o dizer, são muitos os sinais que em geral lemos. Mas que não resultaram de um qualquer acaso, como por exemplo acontece quando há uma expressão de espanto: a de alguém que fica a saber de alguma surpresa; ou de um facto de todo inesperado, que por isso motiva as referidas expressões faciais (ou corporais) que outros lêem.

Expressões que foram naturais e não teatrais... 

Já que é no teatro, por exemplo, que há sinais (ou movimentos - a mímica) que foram propositadamente incluídos para serem vistos e valorizados, pelos espectadores/leitores desses gestos (ou desses sinais). E o mesmo vale para o cinema, ou para todas as outras imagens previamente pensadas e compostas, mesmo que sejam estáticas e paradas:

Concretamente aquelas que nos fazem lembrar os verdadeiros mapas, que estão repletos de informações. Ou ainda, por exemplo - e no nosso caso - os desenhos de um projecto. Pois, é óbvio, se um arquitecto projecta/desenha uma fachada, quer vê-la construída tal como a imaginou.

Se um designer concebe um cartaz publicitário, estuda-o meticulosamente, para criar um efeito que premeditou. O qual é dirigido, propositadamente, às mentes daqueles que considera serem o seu público-alvo.

Temos como certo, incluindo aqui os pintores, que todos os que trabalham sobre imagens (artísticas) - que as imaginam, criam e as compõem -, que esses autores são absolutamente dirigidos a objectivos, os quais não querem ver traídos nem deturpados.

Por isso, e ainda no nosso post já mencionado, no texto que escolhemos de Alberto Manguel (para o citar) aí está:

"Algumas dessas leituras são coloridas pela certeza de que a coisa lida foi criada para esse fim específico por outros seres humanos ..." 

E sim, é mesmo verdade, a tal coisa que lemos, e que logo nos saltou aos olhos** (não havendo, ou não tendo detectado na referida gravura outros sinais que tenham este mesmo carácter), foi certamente criada, expresso, para ser lida.

Em suma, na imagem que nos motivou a fazer este post, como está abaixo, lemos logo, imediatamente, aquilo que achámos gritante. E que, divertidamente (pois claro que o maior gosto é nosso), temos a noção que a maioria das pessoas não vê..., e portanto nem sequer lê! 

Nem sequer goza!

LivroManguel-B.jpg

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*Autor de:

IMG_20201226_121624-A.jpg 

**Daí, ok, pode-se dizer com A. Manguel ser uma "leitura colorida ":

Pelo sobressalto, pela emoção, pela descoberta, por um imenso prazer! Ao ver que aquele sinal foi ali posto para o vermos. E este blog - ICONOTEOL0GIA - foi criado a propósito deste prazer que é saber ler! Concretamente ler sinais antigos - como está (hiper-visível) no excerto acima

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31.12.20

Não para 2020, claro, mas para a vida! Para todos os outros anos que se hão-de seguir.

Já que cada ano é também aquilo que nos enriquecemos; o que percebemos, o que mudámos de opinião, quando vimos que afinal tínhamos andado mal-informados.

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Em resumo:

Que o 2021 nos traga um novo equipamento intelectual, para ao abrir os olhos termos mais do que sensações, imagens ou meras luzes.

Que novas percepções possam tomar o lugar dos simples brilhos; ou das imagens cujas histórias ainda estamos aquém de compreender, na totalidade... 

(como no post anterior)

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27.11.20

Desde que conheci esta imagem fiquei fascinada com ela.

E emocionada, e sei lá até se com o coração a bater acelerado...? Foi amor à primeira vista.

P1010026-A.jpg

Mas depois li, e reli, a legenda dos editores, e de quem seleccionou as imagens deste livro que é absolutamente maravilhoso*.

Li avidamente à procura de mais. Mas a legenda (abaixo), embora com algumas "tournures" - que pretendem alertar para algo que a composição possa conter; apesar disso, o que deixaram escrito pouco adianta, ficando muito aquém - completamente «abaixo» - da imensa riqueza (conceptual) da obra que, há séculos tinha sido criada...  

P1010026-B.jpg

É que na imagem o que se vê, tirando os dois jardineiros, e os pauzinhos mais ou menos retorcidos e naturalistas, de uma trepadeira que provavelmente devemos pensar como sendo uma  vinha; o que todos vemos - canteiros, escadas, paliçada, casa - com porta e duas janelas; e ainda os arcos (de círculo) entrelaçados - tudo isso, todo o cenário é, propositadamente e assumido, feito exclusivamente de Geometria**.

É aliás um óptimo exemplo, dos melhores que conhecemos, para associar àquela frase original (em grego) do Pseudo-Dionísio, o Areopagita;  à frase que Maurice de Gandillac traduziu para francês assim:

"...En somme une intelligence perspicace ne saurait être embarrassé pour faire correspondre les signes visibles aux réalités invisibles.” **

Mas, e para o caso de haver dúvidas sobre a legibilidade desta, e de outras obras, para isso estamos aqui.

E vamos continuar a estar, mesmo que, como hoje, fique para o leitor a tarefa principal que é a de fazer a leitura/interpretação da obra. Que responda a esta pergunta:

Porque é que alguém diz que a imagem acima é linda...? 

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Referimo-nos a Le Moyen Âge en Lumière, dir. Jacques DALARUN, Fayard, Paris 2002.

** A mesma (geometria) que para Hugues de Saint-Victor era - "...source des sensations et l'origine des expressions".

*** E que várias vezes já citámos noutros posts. Como por exemplo neste outro.

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20.11.20

Por aqui continuamos a reunir imagens de círculos entrelaçados, que, como é sabido podem ser «arrumados» de muitas maneiras. Isto é, de acordo com diferentes regras geométricas: abaixo de acordo com uma malha triangular, ou, que também poderíamos dizer: ad triangulum.

fromGombrich-p.68-b.jpg

Mais, sabemos como muitas imagens anteriores ao cristianismo, por diferentes razões - da ordem dos sincretismos, e de acumulações, que sempre se observam nas obras de arte; em resumo, e para abreviar caminho, sabemos que um dia muitas dessas imagens, que já existiam,  porventura com algum valor significante, tornaram-se como que verdadeiros emblemas: neste caso da religião cristã.

Porém, ultimamente, quem acompanha os nossos posts, pode constatar que temos estado mais dedicados aos quadrifólios. Imagens que obedecem a uma malha quadrangular, e que se quisermos também podemos designar ad quadratum (como acima se referiu a designação ad triangulum).

E aqui, há que o dizer, desde há anos, quando entrámos nestes temas, passámos a considerar a colocação do quadrifólio,  numa qualquer obra - como ornamento, como alegoria, como símbolo, ou enfim como mnemónica - que pretendia aludir à Virgem, Mãe de Deus. Designada Theótokos

theotokos-C.jpg

Já escrevemos alguns posts sobre o assunto, como é o caso deste...   Ou ainda deste outro.

Escritos que, muito provavelmente, não serão os últimos dedicados a este tema*. Tanto mais, que é insistente e sempre muito repetida, a inclusão destes Ideogramas nas obras de arte. Desde a antiguidade tardia (como na 1ª imagem seguinte) à arte contemporânea de uma casula desenhada por Matisse. Na 2ª imagem, como a vimos e como a lemos**.

*David Gategno em b.a. - ba Símbolos, Hugin 2000, ver p. 102, escreveu sobre o quadrado: "...simboliza a Terra-Mãe como mediadora divina entre a sua progenitura humana e o amor principial de Deus". E no Dicionário dos Símbolos por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, ed. Teorema, p. 556, sobre o Quatro, e depois de inúmeras associações e significados, quase no fim (e segundo as teorias de Jung) pode-se ler: "a Virgem Maria, em quem o amor (o Eros) atinge a altitude da devoção espiritual;"    - 

**E naturalmente, neste exemplo de Matisse onde a cruz aparece sobreposta a dois trifoils, é para nós demasiado evidente, que os quadrifoils não foram escolhidos e colocados gratuitamente: como uma imagem que se aplicasse apenas porque sim e apeteceu! Um qual mero voluntarismo que apeteceu ao autor, simplesmente por gostar da forma... 

Nada disso, como é óbvio, os quadrifólios foram usados pelo seu significado antiquíssimo.

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15.11.20

Vem na sequência dos posts anteriores, até porque isto da Geometria*, se para alguns foi linguagem, para nós é imensa curiosidade: ou seja, uma espécie de vício permanente**.

QuadrifolioVãos-Pal.DuquesDeBragança-pergunta.jp

A janela é a do Palácio dos Duques de Bragança, na Vítor Cordon, rua que se chegou a chamar do Ferragial de Cima.  

No Espaços & Casas, Eps nº 44 - Programa 603 - fiquei (quase) fascinada com o exemplo de restauro/reabilitação que foi feita

Como dizem "foram preservados detalhes arquitectónicos da sua traça original, as fachadas foram mantidas..."

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*Geometria da qual Hugo de S. Victor, em Didascalicon, disse ser: "...source des sensations et l'origine des expressions".

** Na verdade, ao aperceber-me como os teólogos se socorreram da Geometria, para explicarem (e defenderem) as suas subtilezas, desde então, ver e descobrir (com todo o cuidado) nos desenhos rigorosos, o que é que de facto lá está, passou a ser um objectivo. Daí dizermos que se trata de um vicio (da curiosidade) 

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13.11.20

Como se vê pelas imagens, e considerando a nossa metodologia, de que se escreveu no post anterior, temos mais alguns desenhos a fazer:

E desse modo apreender a lógica da construção gráfica (no contexto do que foi uma iconoteologia) que está subjacente à forma/design que foi dado às janelas do Palácio dos Duques de Bragança, em Lisboa, no Chiado.

fromBehance-E.jpg

Como está no título, e se provou ao estudar Monserrate*, da Teologia à Arquitectura não foi um passinho, simples e curto. Mas sim foi uma passagem, que aliás já tinha raízes na antiguidade, como A. W. N. Pugin e George Hersey  escreveram e lembram... 

fromBehance-F.jpg

Em suma, há que registar que apesar da Ciência** querer distância relativamente a algumas das questões que vimos a colocar - e que se julgam absolutamente pertinentes para o restauro dos edifícios antigos: o que também passou a ser designado regeneração da cidade).

No entanto, o cuidado posto no seu trabalho por alguns profissionais, como este caso é um exemplo razoável***, isso também revela que a cultura, e as formas tradicionais - o que em tempos chegou a ser visto como picturesque - é uma mais valia que pode «ajudar ao negócio».

Provando assim, naturalmente, que apesar de a Ciência ser pouca - não difundida, maltratada - há quem queira superar as limitações existentes, fazendo o seu melhor:  i. e., mesmo que as bases teóricas ainda sejam rudimentares

duques_de_braganca_092-300.jpg

As fotografias acima - óptimas para o nosso propósito tão especifico (comparar regras de «desenho projectual», como se vê na imagem seguinte) - vieram de: 

https://www.behance.net/gallery/44273239/Duques-de-Braganca-Lisbon

comparar-osDoisVãos.jpg

É que, aqui para nós que somos arquitectos - e não para os historiadores de arte, cuja forma de pensar é outra, totalmente diferente...

Para nós a construçao das imagens a plasmar nas edificações implica toda uma grande série de tarefas, que é totalmente independente dos trabalhos de construção: i. e.,  da obra que é posterior às decisões projectuais.

A concluir: se a arquitectura é "cosa mentale", já a construção é, completa e exclusivamente, uma coisa mecânica 

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*Ver em Glória Azevedo Coutinho, Monserrate uma Nova História, Livros Horizonte, Lisboa 2008.

**Neste caso a História da Arquitectura

***Porque há práticas habituais, e sobretudo há profissionais nas CMs que vão acompanhando os processos, tendo em vista a sua aprovação para construção. No entanto não há manuais/documentos escritos que clarifiquem e levem mais longe, exactamente ao nível da iconografia da arquitectura, como se deve proceder. E especificamente nesta zona de Lisboa, que é marcadamente georgian, corrente estilística que entre nós é pouco conhecida. É a zona que foi chamada bairro de S. Francisco, assente sobre o monte Fragoso e onde depois do terramoto "se levantaram numerosos palácios" . Edifícios que seguindo a nomenclatura de Robert Adam em The Globalisation of Modern Architecture provêm de "Faith-Based Styles".  

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9.11.20

Não era suposto fazer este desenho. 

Mas ainda bem que o fizemos, porque ... as usually 

janelaGóticaChiado-castanho.bic-D.jpg

Ele trouxe-nos novidades, ou se aprendeu mais qualquer coisinha: sobre as imagens da arte, e neste caso sobre as formas da arquitectura. E isto apesar de alguns erros.

Pois não é apenas pelo erro mais nítido que o desenho tem (esse relaciona-se com os nossos nistagmas*); mas, para quem sabe geometria, pelos outros erros aparentes - que até não são bem erros -, mas mais a constatação da existência de várias «decisões conceptuais». O que se detecta que aconteceu neste caso, quando o nosso objectivo é copiar, ou recriar aqui, a imagem de uma janela que sabemos existir na zona do Chiado (concretamente no que foi o Palácio dos Duques de Bragança).

 

Em conclusão, o que acima estamos a chamar erros, não são distorções do olhar de quem fez o desenho, mas sim distorções ou desvios propositados, e que por isso podemos chamar-lhes, globalmente, uma intenção conceptual. Seriam, caso fossem erros, muito menos fáceis de se detectar ou perceber.

Porque o modelo real, e aqui nesta situação foi mesmo real..., mostra-nos que foram usados truques no desenho da janela- Talvez para a adoçar?

 

Perguntamos, pois seria, se fosse correcto, o tal "pointed arch",  que foi visto como inconveniente, pelos classicistas românticos**. Os que acusavam o Gótico de ter formas bárbaras: concretamente, demasiado pontiagudas

janelaGóticaChiado-0.jpg

E ao tentarmos desenhar a partir de uma fotografia com perspectiva, como sempre sabemos que vale a pena fazer contas, para encontrar, não a medida certa, mas a proporção. Duas coisas que são diferentes, e que muitas vezes são esquecidas... 

janelaGóticaChiado-1A (1).jpgjanelaGóticaChiado-1B (1).jpg

janelaGóticaChiado-castanho(1).jpg

Assim, e de acordo com esta nossa metodologia experimental, tendo sempre em consideração por um lado: 

 

1. o rigor da geometria - que devia funcionar como a gramática e a lógica que gerava as formas;  e ainda

 

2. os significados (por vezes também rigorosos, ou unívocos***, que eram associados a essas mesmas formas;

 

Deste modo, e tendo presentes esses dois considerandos, naturalmente só pelo desenho se podem compreender os objectivos dos criadores, que lidavam (ou projectaram) com imagens de génese medieval.

 

Se num dos nossos últimos posts escrevemos isto, chamando a atenção para o facto de as imagens anicónicas, serem vistas como simplesmente geométricas, e portanto insignificantes; na verdade também sabemos de quem tenha associado Amor e Geometria.

 

Porquê? Por uma simples razão: porque a Geometria pode falar!

 

E falou, falou mesmo muito alto, como também James Ackerman estudou esta questão a propósito da Catedral de Milão. Ao registar (segundo pensamos ele não compreendeu completamente) o que poderia ser uma obra Ad triangulum ou Ad quadratum. 

Acontece que na janela (acima), pelo menos intencional, na visão que cada um captava - e na luz que por dentro se obtinha - essas duas «regras» ou «estruturas essenciais do universo», o Ad triangulum e o Ad quadratum, estiveram presentes:

Legíveis como alegorias (alusões ou mnemónicas) que, para quem sabia dessa questão, dessa maneira eram lembradas

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* Nistagmas são movimentos involuntários dos olhos, geralmente associados a vertigens

 

** Em inglês, não esquecendo que para Monserrate Uma Nova História muitas das nossas investigações foram feitas sobre bibliografia inglesa - onde várias vezes se aborda esta problemática. Não esquecer também que muitos românticos  (talvez ainda mais românticos do que os classicistas) viviam apaixonados pelo Gótico, sendo verdadeiros medievalistas

 

*** Univocidade, note-se, que aqui queremos dizer como sendo o contrário de polissémico: o que embora possa ter um sentido lato, que não é ambíguo.

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18.6.20

30.6.2017-Portalegre-B.jpg

 

HOJE, a propósito de círculos, e de imagens emblemáticas, estamos a encontrar materiais de 2003, que, só em parte puderam entrar no trabalho dedicado a Monserrate.
Já que, na Faculdade de Letras investiga-se Arte, mas não é suposto poder apoiar as ideias com desenhos...


Menos ainda, com desenhos de origem geométrica! Abstractos...?


Ora a tonta:
Que é lá isso*?
Vê-se logo que é arquitecta! Saber ler imagens como se fosse uma língua**?

 

Porém - e agora vem a história mais longa -, acontece que o post que está no facebook {em https://www.facebook.com/gloria.azevedocoutinho.7/posts/875393426299924}, começou por aqui:

na sequência das imagens seguintes

 

caminhosDeUmaIdeia.jpg

Porque, ao olharmos a sobreposição de círculos sobre a fachada de Monserrate, começámos a pensar na «elegância» que é - visualmente -, esta intersecção dos círculos: já não toda, mas principalmente na sua parte inferior... Quando se eleva e também parece um cálice.

 

Foi quando nos lembrámos que esta mesma imagem (e sabemos disto desde 2003) está no Palácio da Vila, em Sintra, num remate azulejar:

 

Image0068-aSINTRA-PAL.DA.VILA-F.jpg

 

Naturalmente, da imagem mental - já há mais de 15 anos prontinha, na cabeça - daí, à possibilidade de fazer a experimentação/verificação (como tem sido sempre a nossa metodologia de trabalho); obviamente que esse passo - hoje, com algum tempo -, se resolveu num instante.

 

Porque, como os arquitectos podem verificar nas imagens seguintes, algumas intersecções estão «levemente alargadas»: o que não tira, minimamente, a validade às teorias que defendemos.

Apenas mostra, e valoriza, o imenso rigor geométrico com que os antigos trabalhavam

SINTRA-PAL.DA.VILA-AZULEJOS-BASE-GEOMÉTRICA.jpg

SINTRA-PAL.DA.VILA-SCALA&IPPAR.jpg

 

Por fim, e dado que não é a primeira vez que expomos esta questão (até porque rende mais fazer este tipo de análises no Facebook, do que em qualquer Universidade portuguesa...), na imagem seguinte está a sobreposição do esquema geométrico (rigoroso e anicónico), posto sobre as imagens icónicas. Ou, será que devemos dizer naturalistas (?). Imagens que permitem à maioria*** ler, e assim compreender, que se trata de uma representação da Trindade.

 

Filioque-SobreposiçãoIcónico+Anicónico.png

 

 

Por fim, as conclusões?, são para quem as quiser tirar...

 

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*Isso, é a necessidade de proteger o que nos pertence:
A prova de que muitas obras são/foram ICONOTEOLOGIA


**Outra «tontice absoluta», só pode ser: defender que as Neurociências e a Linguística têm alguma coisa a ver com ARTE!

 

***E, acrescentemos a essa maioria, os PROFs doutores do IHA da FLUL, que são os grandes especialistas de História da Arte, quem melhor lê, sobretudo imagens concretas e explicítas. Já que, ... abstracções? Não, isso não é com eles...

 

link do postPor primaluce, às 19:30  comentar


 
Primaluce: Uma Nova História da Arquitectura
Fevereiro 2021
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